Aulas de Xadrez

IV Floripa Ches Open 2018

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terça-feira, 17 de março de 2009

A Massa de Peões Centrais - I

I - INTRODUÇÃO:

Em apresentações anteriores, foram abordados aspectos da luta central envolvendo estruturas fixas de peões no centro, onde os dois lados adotaram procedimentos para sua ocupação, abertura e domínio de linhas, em especial as colunas centrais, para então encetarem ações de ataque, seja pelo centro, seja pelos flancos.

Dentro desse tema, foram enfocadas aberturas e defesas onde ocorrem estruturas de peões fixos com presença de:
uma coluna central aberta (palestra 1);
duas colunas centrais abertas, contíguas ou intercaladas por ilhas de peões (palestra 2).

Nesta oportunidade, a luta pelo centro será abordada pelo tema da ocupação do centro por massa de peões por um lado (geralmente brancas), enquanto que o outro (pretas na maioria dos casos) ficará ausente na ocupação do centro, preferindo manter seu controle à distância, pressionando a posição adversária através de peças e avanços de peões laterais, notadamente o peão da coluna "c".

Essa configuração de ocupação maciça de peões por um dos lados, sendo que o outro irá converter o avanço assim estabelecido em objetivo de ataque, freqüentemente leva a lutas agudas, onde cada bando deverá agir com a máxima energia para não sucumbir rapidamente ante o jogo, de um lado esmagador, de outro contragolpeador, do adversário. Não é sem razão que um percentual expressivo de partidas no xadrez contemporâneo tenha sua gênese nesse tipo de posição, pois que nela as chances de vitória estarão sempre do lado que revelar melhor preparo, criatividade e combatividade.

Vários sistemas de aberturas, defesas e variantes se enquadram nessas características. A título de exemplo, a seguir apresenta-se três desses sistemas e variantes.

1. Defesa Alekhine – Variante dos quatro peões:

Nesse caso, além de permitir a ocupação central pelos peões brancos, ocorre inclusive a provocação do avanço prematuro dos mesmos, em operação de duplo gume: sujeitar-se à asfixia por diminuição de território de operações, para em compensação empreender manobras de pulverização dos infantes assim avançados.

1.e4 Cf6 2.e5 Cd5 3.c4 Cb3 4. d4 d6 5.f4


Esta é a posição característica da Variante dos Quatro Peões da Defesa Alekhine. Percebe-se que, na abertura, enquanto brancas procuram a ocupação rápida e total do centro pelos peões, pretas realizaram três lances consecutivos de cavalo e apenas um de peão central, desafiando princípios estabelecidos pela Escola Clássica, para demonstrar que a Escola Hipermoderna também tem seu lugar na História.

5...de4 6.fe4 Cc6 7.Be3 Bf5 8.Cc3 e6 9.Cf3



Neste momento existem cinco respostas razoáveis para as pretas: 9...Be7, 9...Bg4, 9...Dd7, 9...Bb4 e 9...Cb4. Esta ultima enquadra-se perfeitamente dentro do espírito da variante:

9...Cb4.

Observa-se que o lado branco avançou seus peões centrais, conquistando território, reforçando a defesa dos mesmos e preparando a cena para violento ataque à posição das pretas.,Por seu turno, o lado preto, após os lances repetidos de cavalo já reportado, preocupou-se em desenvolver suas peças rapidamente, mantendo intacta sua estrutura de peões visando um melhor final, ao mesmo tempo em que, com manobras ativas, está empreendendo ação de minar o centro branco, pulverizando sua estrutura distendida. Continuando cada lado com seus planos, tem-se agora:

10.Tc1

Defendendo-se do xeque em c2 e reforçando casas centrais.

10...c5

Minando o controle da casa d4.


Esta é a posição crítica dessa linha, a qual já foi jogada inclusive pelo próprio Alekhine na partida Znosko Borovsky – Alekhine, Paris 1925. Cada lado esforça-se para continuar com seus planos: brancas mediante plena ocupação central com peões ou peças que os substituam no caso de trocas; pretas mediante solapamento do centro de peões brancos, para em seguida converte-los em objeto de ataque.

Esta posição já foi jogada por GMs como Keres e Mikhalchishin.


2. Defesa Grünfeld – Variante das trocas:

Aqui também a abertura se desenrola com atração dos peões centrais brancos mediante saltos consecutivos do cavalo do rei do bando preto, para em seguida o centro assim ocupado converter-se em objeto de ataque.

1.d4 Cf6 2.c4 g6 3.Cc3 d5 4. cd5 Cd5 5.e4 Cc3 6.bc3

Esta é a posição característica da Variante das Trocas da Defesa Grünfeld.

Da mesma forma que na Variante dos Quatro Peões da Defesa Alekhine, aqui também se verifica que, enquanto o lado branco procura a ocupação total do centro pelos peões, o adversário realizou três lances consecutivos de cavalo e apenas um de peão central. Além disso, a troca dos cavalos introduziu o deslocamento do peão "b" branco para reforço da posição de seus companheiros centrais. Em compensação, com o forte bispo em g7 em colaboração com o cavalo em c6, o peão em c5 e as peças pesadas na coluna "d", o lado preto irá pressionar as casas centrais e os peões brancos nelas posicionados.

Entre outras, neste ponto é possível a seguinte continuação:

6...c5 7.Bc4 Bg7 8.Ce2 0-0 9.0-0 cd5 10.cd5 Cc6 11.Be3


Neste momento existem quatro respostas razoáveis para as pretas: 11...Bg4, 11...b6, 11...Bd7 e 11...Ca5. A primeira é a mais adotada, geralmente levando a uma aguda luta pela imposição dos planos de cada bando.

11...Bg4 12.f3 Ca5 13. Bd3 Be6 14.d5



Posição crítica desta linha.

Para neutralizar a pressão do bando preto sobre as casas d4 e c4, o lado branco decide-se pela entrega da qualidade, mantendo a integridade de seu forte centro de peões. Adicionalmente, explorando as debilidades das casas pretas do roque adversário, empreendem ainda ataque ao monarca preto. Por sua vez, o adversário dispõe de várias alternativas de defesa, entre as quais destacam-se a manutenção do ganho de qualidade mediante árdua defesa, ou a devolução dessa vantagem material, aliviando o ataque e confiando em sua maioria de peões na ala da dama e na exploração do avançado centro de peões brancos.

Em presença de todas essas características, esta posição é jogada por muitos GMs do top board da atualidade, entre os quais se incluem Kharlov, Mamedyarov, Van Wely, Gulko, Khalifman, Krasenkow, Dreev e outros.

3. Defesa Índia de Rei - Ataque dos quatro peões

Esta variante esteve em voga no início dos anos 20, quando então foi considerada a refutação da Defesa índia do Rei. Posteriormente, foram descobertos métodos variados para assegurarem, ao menos, o equilíbrio dinâmico da partida.

1.d4 Cf6 2.c4 g6 3.Cc3 Bg7 4. e4 d6 5.f4

Esta é a posição característica da Variante dos Quatro Peões na Defesa índia de Rei. Aqui o bando preto preocupa-se primeiramente em desenvolver suas peças da ala do Rei para rocarem de imediato. Enquanto isso, o lado branco aproveita-se da ausência de lances pretos de ocupação central para fazê-lo maciçamente com seus peões. Entre outras, neste ponto é possível a seguinte continuação:

5...0-0 6.Cf3 c5 7.d5 e6 8.Be2 ed5 9.cd5 Te8 10.e5 de5 11.fe5
Nesta posição crítica, similar às variantes oriundas da Defesa Benoni Moderna, cada bando esforça-se para impor seu jogo. Brancas, pelo incremento de suas ações de apoio ao avanço de seus peões centrais mesmo que à custa do sacrifício de um deles. O lado preto, por seu turno, deverá continuar explorando a posição avançada dos peões brancos, para a captura de pelo menos um deles e a adequada movimentação de suas peças para impedir a progressão do ataque das brancas.

Pelas suas características de jogo agudo em algumas linhas, na atualidade o Ataque dos Quatro Peões continua sendo jogado por GMs fortes como Lautier, Nakamura, Smirin, Arencibia, Sasikiran,.Lalic, e outros.

II – TRANSFORMAÇÕES POSICIONAIS DA MASSA DE PEÕES CENTRAIS:

A conseqüência mais direta da postura assumida por ambos os jogadores nessa classe de aberturas consiste na gênese de posições complexas, fluidas e assimétricas, perfeitamente dentro do atual estado da arte do xadrez contemporâneo.

Devido ao caráter agressivo desse tipo de posições, quando elas ocorrerem deve-se estar preparado para enfrentar uma situação de sucessivas transformações dramáticas, onde o lado que melhor souber compreender os motivos dessa rápida evolução colherá os melhores resultados.

A ocupação central maciça e a exploração dessa ocupação nunca são elementos estáticos, e tampouco representam um fim em si mesmo. Essas posições evoluem, transformam-se, derivam para outras rapidamente, as quais por sua vez poderão outorgar vantagem decisiva para o lado que melhor souber avaliá-las.

Nesse diapasão, o estudo dessas posições remanescentes, e a compreensão das transformações que nelas resultarão, consiste em elemento importantíssimo do preparo do jogador. Compreendendo-as, ele poderá sacar vantagem imediata da aguda luta que permeia todo o processo, seja na forma material ou posicional. Inclusive, são freqüentes os casos onde as posições resultantes apresentam elevado diferencial de material ou de posição.

A seguir, serão apresentadas partidas com comentários exclusivamente dirigidos a esses elementos de transformação, já que o conhecimento e alcance das posições críticas, como as que foram apresentadas na fase introdutória desse trabalho, além de outras, pode ser adquirido mediante consultas a livros e bases de dados.

1. Defesa Alekhine – Variante dos quatro peões: a história de duas partidas

Bronstein, David (2585) – Ljubojevic, Ljubomir (2570)
Interzonal de Petrópolis-RJ – 1973 [B03]

1.e4 Cf6 2.e5 Cd5 3.d4 d6 4.c4 Cb6 5.f4 dxe5 6.fxe5 c5

O lado preto adota modo diverso do usual nesta variante, no sentido de atrair os peões centrais brancos para uma configuração onde ele acredita estarem mais vulneráveis: a falange d5-e5.

7.d5

Por seu turno, o lado branco avalia exatamente o oposto! Acredita firmemente que a falange d5-e5, em vez de enfraquecida, constitui-se em frente excelente para desencadear o merecido castigo ao comportamento provocativo do adversário...

Este é o eterno choque das idéias no Xadrez, que o torna atrativo a todos aqueles que não se conformam com a mesmice e a falta de criatividade!

Pelos motivos elencados, tanto para brancas como para pretas, este lance constitui o primeiro estágio da transformação posicional do centro de peões avançados.

7...e6 8.Cc3 exd5 9.cxd5 c4 10.Cf3 Bg4


Pretendendo agir com celeridade para não ficar inferior ante a intenção de domínio central das brancas, o lado preto decide-se pelo sacrifício de material para ganho de tempos importantes na fase de abertura.

11.Dd4 Bxf3 12.gxf3 Bb4 13.Bxc4 0–0

Em que pese o centro reforçado e o peão a mais, os problemas das brancas não são poucos: seu Rei está no centro, e as ameaças das pretas são concretas em termos da manobra Cc6-e5. O roque pequeno é impraticável face ao lance Dc7, com ameaça simultânea ao bispo em c4 e ganho da Dama mediante Bc5. Entretanto, mesmo ante esta ameaça de Bc5, Bronstein decide-se por jogar ativamente na coluna "g" .

14.Tg1 g6 15.Bg5 Dc7 16.Bb3 Bc5 17.Df4! Bxg1 18.d6!

Esse é o segundo estágio da transformação posicional do centro de peões avançados. Na avaliação da posição pelas brancas, em troca da torre, desorganizam as peças pretas mediante avanço de seu peão central, o qual atua como verdadeira "cunha" a dividir o jogo preto em duas partes com dificuldade de comunicação: Dama, cavalos e torre na ala da dama, e Rei, torre e bispo na outra ala, de resto já gravemente enfraquecida nas casas pretas.

Por seu turno, Ljubojevic confia em que sua vantagem material, conjugado com ataque à frente de peões centrais brancos, e ainda com ameaças à posição exposta do monarca adversário, serão suficientes para obter resultado satisfatório.

Este é o tipo de avaliação que merece toda a dedicação que possamos dar a ela: em posições similares, deve-se estar atento a manobras incisivas, onde inclusive a entrega de material sem retorno imediato deve ser seriamente considerada. E o lado que tiver a vantagem material deverá considerar sua devolução no momento apropriado, para obter vantagem decisiva ou ao menos para o equilíbrio de oportunidades.

18...Dc8 19.Re2 Bc5 20.Ce4

Uma característica dos peões centrais avançados quando atuando como ponta de lança na posição contrária, consiste em que eles abrem lugar na sua retaguarda para bases centrais de instalação de peças, notadamente os cavalos, que por sua vez podem desempenhar duas finalidades importantes: reforçar o avanço ou ruptura da frente de luta (os peões avançados) e atacarem peças adversárias ou dominarem postos avançados de acesso ao interior da posição contrária, aproveitando as casas de apoio criadas pela ponta de lança. Aqui, o Cavalo em e4 cumpre os dois papéis simultaneamente: ataca o bispo em c5 e dirige-se para o mortal golpe ao monarca preto em f6.

20...C8d7 21.Tc1 Dc6 22.Txc5!

Mais um sacrifício, desta vez da qualidade, que serve de desvio das peças pretas da defesa de seu Rei.

22...Cxc5 23.Cf6+ Rh8 24.Dh4 Db5+ 25.Re3!
Sem temer o xeque em d3, o qual não aliviaria a situação das pretas porque não teria solução satisfatória de contra-ataque.

25...h5 26.Cxh5 Dxb3+

Ao verificar que o ataque branco resulta devastador, GM Ljubojevic pretende algum contra jogo mediante devolução de material. Entretanto, poderia abandonar de pronto, porque as peças remanescentes das brancas, aliadas aos peões centrais avançados, são mais que suficientes para garantir a vitória ao GM Bronstein.

27.axb3 Cd5+ 28.Rd4 Ce6+ 29.Rxd5 Cxg5 30.Cf6+ Rg7 31.Dxg5 Tfd8 32.e6

Abrindo o terceiro estágio da transformação posicional dos peões avançados. Aqui, em presença da total subjugação das pretas, Bronstein aproveita para abrir as defesas do monarca contrario, colocando seu Rei em condição de colaborar com o ataque.

32...fxe6+ 33.Rxe6 Tf8 34.d7

Este lance abre o quarto estágio das transformações de posição dos peões avançados. Como já foi dito, nesse momento a posição resultante de todas as transformações havidas desde a construção do centro branco apresenta elevado diferencial material e posicional, no presente caso em favor das brancas.

34...a5 35.Cg4 Ta6+ 36.Re5 Tf5+ 37.Dxf5 gxf5 38.d8D fxg4 39.Dd7+ Rh6 40.Dxb7 Tg6 41.f4 1–0.

Por: Ernesto Luiz de Assis Pereira elap@terra.com.br - Texto do Ciclo de palestras do Clube de Xadrez de Curitiba http://www.cxc.org.br/ realizada em agosto de 2006).

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