Zonal 2.4

Aulas de Xadrez

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Regras de Steinitz

REGRAS DE STEINITZ



As chamadas regras de Steinitz são um conjunto de preceitos que marcaram uma grande evolução no jogo. Foram inicialmente desenvolvidas pelo primeiro campeão mundial e formuladas e difundidas mais tarde principalmente por Emanuel Lasker. O xadrez se transformou totalmente com a aplicação destas regras, que transcendem ao jogo e são aplicáveis a todo tipo de luta. A lógica que as movimenta não conhece fronteira de tempo ou escola. A evolução posterior do jogo representa um refinamento deste primeiro pensamento científico. Estas idéias básicas explicam os diversos cenários da luta enxadristica e responde a perguntas básicas e fundamentais do porque se ganha, porque se perde, porque se ataca, quando se ataca, porque se defender, como atacar, como defender, o que é equilíbrio, que fazer em uma situação de equilíbrio ou definitiva, celebra um momento aonde o pensamento e a criatividade de cada jogador pode desenvolver-se e manifestar-se com êxito.
Segue uma síntese do fundamento principal das mesmas.

1. O bando dominante pode atacar, e deve faze-lo, do contrário, correrá o risco de perder a vantagem. Deverá atacar o ponto mais débil da posição do adversário. (K)

2. O efeito dos pontos débeis e fortes é decisivo, todo o resto é de uma importância secundária. (L)

3. Principio da proporção. O tipo de lance que é necessário está determinado pelas exigências da posição. Se você tem uma grande superioridade de forças em um setor aonde o inimigo tem importantes debilidades, tais como o Rei ou a Dama em má posição, etc., deve atacar este setor o mais rápido possível. Cada uma de suas jogadas terá a idéia de conseguir o melhor resultado. Suas forças de reserva devem estar prontas para o ataque com tanto ganho de tempo quanto seja possível – atacando, por exemplo, algumas debilidades pelo caminho – e as forças de reserva do oponente devem ser mantidas no limite, se possível, mediantes obstruções que poremos no caminho. Os meios são diversos, mas as variantes em razão das muitas jogadas forçadas por parte da defesa, são normalmente poucas, e em conseqüência sujeitas à analise direta. De tais ataques falamos que o “ritmo” (andar, correr) é rápido. (L) Quando sua superioridade não está claramente definida, deve ficar satisfeito com atacar de maneira mais tranqüila, melhorando seus pontos fortes, e metodicamente criando outros novos pontos nas linhas de defesa de seu oponente. Em tais casos o plano é tudo, o tempo, questão de importância secundária. Em geral o “ritmo” do ataque deve ser mais reduzido quanto menor for a sua vantagem. (L)

4. O que está na defensiva deve querer defender-se e fazer temporariamente concessões. (K) A menor quantidade possível, respeitando o principio da economia (L)

5. Em toda posição equilibrada, os dois lados manobram procurando pender o equilíbrio a seu favor. Mas uma posição equilibrada gera outras também equilibradas, em caso que os oponentes joguem com precisão. (K) Devem jogar para manter a cooperação entre as suas peças. (L)
Em uma posição em que tenho vantagem, eu ataco com força, meu oponente deve ter paciência e ser submisso, e pode que, não obstante, tenha de render-se. Sou o martelo, ele, o junco, e o público aplaude. Mas em outras posições equilibradas, eu sou o martelo em uma parte do tabuleiro e junco em outra, e isto pode ser que a platéia não entenda, mas é uma prova mais difícil. Por cada movimento em que obtenho vantagem, eu pago com uma desvantagem. (L) “To get squares, you gotta give squares.” Para obter casas devo ceder casas. (F)

6. A vantagem pode consistir em uma grande e indivisível ou em um conjunto de pequenas. O bando predominante deve acumular pequenas vantagens e transformar as vantagens transitórias em permanentes. (K)
(K): Kotov; (L): Lasker; (F): Fischer)


EXEMPLOS ILUSTRATIVOS


Blackburne,J - Pitschel,K
Paris, 1878



Análise da posição. As brancas possuem um peão a mais, isto por si mesmo não define a partida, é necessário progredir metodicamente incrementando as outras vantagens da posição e logo poderemos fazer valer o material. Para isto Blackburne confia na torre ativa em e5 que sonha entrar na sexta, sétima ou oitava fileira, propicia a abertura da coluna h para dar jogo à outra torre, organiza um ataque contra o peão débil de g5 e trabalha tendo em vista a liberação dos poderes do bispo de e3, momentaneamente limitado pelo peão de d4.

Pode ser útil aproximar em este momento uma, de entre tantas possíveis, definição de ataque: atacar é remover obstáculos. O ataque branco vai no compasso da natureza da vantagem em que se baseia. As jogadas da partida se compreendem facilmente.
37.hxg5 hxg5 38.Th2 Rf8
Se 38...Tg7 39.Th8 Tg8 40.Th7+ Tg7 41.Te7+ Rxe7 42.Txg7+
39.Th7 Bf7
Em 39...Bd5 segue 40.Tb7 Th6 41.Tb8+ Rg7 42.Txg8+ Bxg8 43.Bxg5 Th1 44.Bf4.
Ou: 39...Tg7 40.Te8+ Rxe8 41.Txg7 Td7 42.Txg5 Te7 43.Rf4 Bd5 44.Th5.
40.d5 Txd5 41.Bc5+ Txc5 42.Txc5 Bd5 43.Rf2 Tg7 44.Txg7 Rxg7 45.Txd5 cxd5 46.Re3 1–0





Nimzowitsch,A - Gunsberg,I
St.Petersburg prel St.Petersburg, 1914




As brancas possuem vantagem e devem, portanto, atacar.

Análise da posição:
O bispo preto não pode respirar com tantos peões que compartem no tabuleiro as casas brancas. É o clássico bispo mau dos finais.
Por outro lado, o cavalo branco não tem estes problemas e olha adiante com otimismo e sem travas (peça menor superior).

Os peões de g6 e b7 são debilidades que devem ser atacadas.
O Rei branco ocupa uma excelente posição.
A torre branca por sua parte aponta a b7, mas é um ataque inócuo porque o bispo o defende no momento, sem problemas. Então a torre deve buscar sua melhor posição: a entrada pela sétima e oitava fileira, mesmo que pagando o preço de entregar um peão.
As brancas possuem uma pequena vantagem e a incrementam com a mínima troca de material.
41.Th2 Txg5 42.Th7+ Agora o rei, com pouca mobilidade é objeto de ataque.
42...Rf6 porque retroceder permitiria a fatal entrada do rei branco por d6.
43.f4 Com isto se fixa o peão de f5 que tanto limita o bispo.
43...Th5 44.Tc7 O bispo preto não é só mau por ser pouco ativo senão que, igual ao rei preto é objeto de ataque. Temos de atacar aquilo que é fraco. O estático e suscetível de ser atacado. Estas idéias se expressam em todas as áreas, por exemplo: é inútil para um leão perseguir um animal são e veloz, ele se concentra nas presas em potencial que não podem escapar facilmente, porque são muito jovens, ou muito lentas, estão doentes, ou tem pouco espaço para fugir.

Em todo caso para obter êxito se ataca aquilo que não se movimenta.
44...Th8 A torpeza do bispo compromete a torre, assim uma debilidade vai gerando outra. A posição vai se deteriorando e é envolvida progressivamente por uma paralisia generalizada.
45.c6 liquida o peão b7 para poder chegar ao de a6
45... bxc6+ 46.Txc6+ Rg7 47.Tc7+ Rf6 48.Rc5 Td8 49.Tc6+ a posição ideal da torre
49...Rg7 50.Cf3 O ágil cavalo busca situar-se para atacar g6
50...Rh6 51.Ce5 Tg8 Paralisia total
52.Rb6 Rh5 53.Rc7 Rh6 54.Cxg6 Não se pode servir a dois senhores. 1–0


Por Marcos De Anna, Clarín 7-4-08 – Publicado em 05/07/2008 - Ano 7 Nº 309 - Semanário de Ajedrez - NUESTRO CÍRCULO - Director: Arqto. Roberto Pagura - - (54 -11) 4958-5808 Yatay 120 8º D 1184. Buenos Aires – Argentina. ropagura@ciudad.com.ar

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O Xadrez no Cinema


HUMPHREY BOGART




Junto a Stanley Kubrick, Humphrey Bogart é o jogador de xadrez mais famoso no mundo do cinema. Humphrey DeForest Bogart nasceu dia 23 de Janeiro de 1899 em Nova York, filho de um famoso cirurgião e de uma mulher que vinha de uma família de empresários, a conhecida ilustradora, Maud Bogart.

Aprendeu a jogar xadrez aos 13 anos com seu pai, durantes as férias de verão no lago Canadaigua, onde sua família tinha uma casa de campo. Visitava os clubes de xadrez de Nova York com freqüência. Teve que abandonar seus estudos na Academia Phillips em Andover, ao norte de Boston por suas faltas e mau comportamento com o qual teve fechadas as portas de uma carreira acadêmica. Em 1918 se apresentou voluntariamente à marinha, mas não teve que intervir na Primeira Guerra Mundial, que estava quase terminando. No ano seguinte voltou a deixar a marinha.

Bogart trabalhou como mensageiro e vendedor de ações. Graças a gestão de um amigo de seus pais, finalmente recebeu um trabalho na oficina de estudos de Peerless em Fort Lee, Nova Jersey. Em 1920 mais por causalidade começou a trabalhar de ator, e trabalhou em alguns filmes na Broadway. Sua vida era caracterizada pela vida noturna nos clubes, festas de jazz, viagens de barco à vela em Long Island e visitas de finais de semana a casas de campo.

Em 1926 se casou com Helen Menken, mas divorciaram um ano mais tarde, depois de muitas discussões. Em 1928 fez uma segunda tentativa e casou com Mary Philips, que tinha o mesmo hobby que ele, a bebida. Permaneceram juntos até 1937. No ano de 1927, o pai de Bogart teve um acidente de carro e piorou sua saúde. Em conseqüência o consultório foi perdendo sua clientela e o patrimônio familiar foi diminuindo. Depois da separação de sua família, o pai trabalhou como médico em navios cargueiros.
Nestes tempos, para ganhar a vida, Bogart jogava xadrez nos parques de Nova York. Sua prodigiosa memória, dizem que bastava ler o roteiro de um filme uma única vez para saber todo o texto de memória, esta memória o ajudava a jogar bem xadrez.
Em 1930 Bogart foi para Hollywood, mas ao principio só conseguiu papeis secundários. Voltou a Nova York e a Broadway e apesar dos papeis secundários que tinha nos teatros, também voltou a jogar xadrez para ganhar dinheiro. Podíamos vê-lo muitas vezes na Time Square com seu tabuleiro de xadrez.

Um grande avanço como ator ocorreu quando Bogart na época com 36 anos, trabalhou de maneira convincente na peça teatral de êxito "The Petrified Forest" (“O bosque petrificado”) junto a Leslie Howard. Seu papel era de um brutal criminoso. Warner Brothers fez uma versão cinematográfica e graças à ajuda de Leslie Howard, também conseguiu o papel de Duke Mantee no filme.

Em 1937 faleceu uma das irmãs de Bogart, com apenas 34 anos, devido às conseqüências do alcoolismo. Bogart se casou com a terceira mulher, Mayo Methot em 1938. Finalmente em 1942 foi rodado o mais famoso filme de Bogart, Casablanca. No filme apareciam varias referencias ao jogo de xadrez que eram sugestões diretas do próprio Bogart.

De uma maneira ou outra o papel de “Rick Blaine” tinha paralelas biografias, já que, igual que Bogart, era enxadrista e bebia muito.
Houve outros filmes aonde Bogart apareceu jogando xadrez, por exemplo, no filme “Knock on any door” (“Bata em qualquer porta”, 1949).

A pesar de ter abandonado a prática do xadrez nos parques quando alcançou o êxito com seu trabalho de ator, o xadrez mesmo nunca o deixou. Jogava xadrez postal contra os mariners americanos além mar e contra os veteranos nos hospitais militares. Estas atividades lhe trouxeram a visita do FBI que suspeitavam que as anotações poderiam ser algum tipo de código secreto.
Em maio de 1945 Bogart se divorciou de Mayo Methot para casar-se com a jovem Lauren Bacall (20 anos) somente 11 dias mais tarde.

Lauren Bacall também era uma aficionada ao xadrez e na página principal da edição de janeiro do Chess Review Magazin (junho/julio 1945), foi publicada uma foto de Humphrey Bogart, jogando xadrez.
Bogart enfrentando a Charles Boyer com Lauren Bacall olhando. Na revista foi publicada ainda outra foto.

Naqueles tempos, Bogart foi um dos diretores oficiais de torneios da Federação de Xadrez dos Estados Unidos e da Associação do Estado da Califórnia de Xadrez e patrocinou o Congresso de Xadrez Panamericano em Los Angeles 1945, aonde atuou ainda como Co-organizador.

Em uma entrevista com a revista Silver Screen Magazín no ano de 1945, Bogart comentou que o xadrez era uma das coisas mais importantes em sua vida. Nos descansos durante a filmagem de suas películas sempre se entretinha com problemas de xadrez. Mas não foi o único que aproveitava para distrair-se com o jogo das 64 casas nos descansos.



Bogart com Charles Boyer e Herman Steiner


Em 1946 voltou a disfrutar seu gosto pelo xadrez apostado aonde enfrentou o dono de restaurantes, Mike Romanoff (1890-1972). Bogart perdeu o duelo e os 100 dólares da aposta. Ao chegar em casa, em seguida chamou pelo telefone a Romanoff para pedir uma partida revanche pelo mesmo valor. Romanoff perdeu em 20 jogadas, mas sem saber que Bogart contava com a ajuda do maestro americano, Herman Steiner.

Mike Romanoff foi o oponente favorito de Bogart. Bogart alugou uma mesa no restautante Romannoffs, no Rodeo Drive em Beverly Hill, fazendo-se presente por muitas vezes. Quando Bogart não aparecia, a mesa ficava permanentemente reservada.

Em 1947 Bogart chegou a ser o melhor ator pago do mundo, ganhando aproximadamente 500.000 US dólares por ano. Fundou uma empresa produtora de películas, Santana Pictures. Correm rumores que Bogart até analisava os seus amigos através de seus conhecimentos enxadristicos. Em 1949 nasceu o filho de Bogart e Bacall, Stephen, e em 1952 a filha Leslie Howard, que recebeu o nome em recordação a velha mentora de Bogart que em 1942 tinha falecido em um giro para animar as tropas americanas. Em uma visita a San Francisco em 1952, Humprey Bogart se enfrentou com George Koltanowski, quem jogou a cegas e venceu Bogart em 41 movimentos.
Em outra ocasião, Bogart tinha conseguido tablas contra Samuel Reshevsky em uma simultânea deste jogador no restaurante de Romanoff.

Bogart recebeu o Oscar por seu papel no filme “African Queen” (A Rainha da Africa, 1951) como melhor ator.
Ao que parece, jogou por muitas vezes xadrez com sua colega de filmagens, Katherine Hepburn, durante as locações do filme no Congo Belga. Foram conservadas as anotações da partida contra o futuro Campeão Nacional da Bélgica, Paul Limbos.
O próprio Bogart, sem duvida se viu como o melhor enxadrista de Hollywood. Entretanto, perdeu uma partida contra o colunista do New York Herald, Art Buchwald.

Em meados dos anos 50, foi diagnosticado um câncer de esôfago. Uma difícil operação em 1956 não teve êxito. Bogart faleceu no dia 14 de janeiro de 1957, com somente 36 quilos devido a sua doença. Seu oponente de xadrez de toda a vida, Mike Romanoff, foi um dos amigos que levou o seu caixão.

Texto de André Schulz – Publicado em 12/04/2008 - Ano 7 Nº 297 - Semanário de Ajedrez - NUESTRO CÍRCULO - Director: Arqto. Roberto Pagura - ropagura@ciudad.com.ar - (54 -11) 4958-5808 Yatay 120 8º D 1184. Buenos Aires – Argentina.

Boletim Informativo do CXC - Maio de 2009

Entrevista: Dr. Mauro de Athayde (parte 4)

Segue, abaixo, a última parte da entrevista com o Dr. Mauro de Athayde, um dos maiores ícones do Clube de Xadrez de Curitiba. Esperamos que nossos leitores tenham gostado, para que possamos preparar entrevistas cada vez melhores!

Segue, abaixo, a última parte da entrevista com o Dr. Mauro de Athayde, um dos maiores ícones do Clube de Xadrez de Curitiba. Esperamos que nossos leitores tenham gostado, para que possamos preparar entrevistas cada vez melhores!

LS: Antes, para entrar aqui no Clube, só se entrava de terno? Qual era a vestimenta?
MA: O terno fazia parte da vestimenta da época. Nos cinemas não se entrava de terno e gravata. Inclusive, se você ia ao cinema sem gravata, o lanterninha te dava uma gravata para você se sentir confortável. Mas aqui no Clube nunca houve qualquer restrição desse tipo.
LS: O senhor teve algum tutor, alguma pessoa em quem se espelhar?
MA: Não, não... Naquela época era cada um por si, eu sempre fui autodidata. Claro que houve jogadores nos quais eu me espelhei, olhava muito as partidas. O Alekhine, por exemplo, que se preparou muito para aquele match contra o Capablanca, era um jogador excepcional.
LS: E o Clube, como o senhor o vê hoje? Deve ser o único Clube do Brasil com toda essa vivacidade.
MA: Pois é, os clubes hoje em geral vivem uma crise. Creio que isso acontece devido ao fato de que há muitos lugares para se jogar xadrez, inclusive gratuitamente: colégios, bibliotecas, a própria internet. Um clube, para sobreviver, precisa funcionar como uma empresa.
Nosso Clube tem se mantido, mas com muitas dificuldades, muitas. Apesar de as últimas diretorias não terem ajudado muito, agora parece que o Clube está em um bom caminho, com o Acyr e sua turma. Mas mesmo assim, é muito difícil.
Antes, na década de 50, por exemplo, você chegava no Clube e não tinha mesa disponível para jogar. Havia 20, 30 pares de jogadores nas mesas, e você tinha que esperar a vez para jogar. Hoje, com a diversificação, não é mais assim. Antes, também, havia jogadores que jogavam aqui grandes quantias, no baralho, o que acabava dando um sustento para o Clube. Nos últimos anos do baralho, as pessoas vinham aqui para jogar 10, 15 reais, o que quase não gerava reservas para o Clube.
O Clube, antes, tinha mais de 300 sócios. Como eu disse, precisava esperar mesa para jogar. Hoje, é um dos poucos que vem se sustentando. Vamos ver, o caminho acho que é tentar conseguir algum patrocínio e alugar a sala onde antes era o baralho.
LS: O senhor tem alguma mensagem para deixar para os novos sócios e para o pessoal que tem se esforçado tanto para manter o Clube de pé?
MA: Eu tenho uma palavra: esperança. Não deixemos a peteca cair. Temos que lutar com todas as forças para não deixar o Clube afundar. As pessoas não precisam nem contribuir trazendo novos sócios, o importante mesmo é participar. Tem que continuar com os torneios, que trazem gente de fora e tem uma contribuição na parte econômica importante.
Temos que lutar até o fim para não deixar o Clube fechar. Seria muito triste ver um patrimônio como esse, por onde passaram diversas gerações de enxadristas. Precisamos chamar os jovens que participam para que mantenham esse lugar, e que nunca percam a esperança. Como disse o Mário Lago poucos dias antes de morrer: “Quando a pessoa perde a capacidade de ter esperança, é melhor apagar o seu arco-íris”. Acho que é por aí. Enquanto tivermos esperança, tudo estará a salvo.

Campeonato Brasileiro Amador:
Realizado entre os dias 30 de abril e 3 de maio, o Campeonato Brasileiro Amador foi um tremendo sucesso. Com 64 participantes, o torneio trouxe a Curitiba atletas de 11 estados, desde o longínquo Amazonas até o Rio Grande do Sul, o que refletiu numa competição onde todas as regiões do Brasil estariam representadas.
Realizado em 7 rodadas, o torneio contou com o benefício de ser disputado em um ritmo de 2 horas nocaute, o que elevou o nível técnico e permitiu aos jogadores mostrar o que de melhor conheciam sobre o jogo. Fato raro nos dias hoje, em que são os torneios de rápido que predominam.
Outro ingrediente importante que veio a incrementar a disputa foi a infra-estrutura fornecida pelo Clube. As cinco primeiras mesas do torneio eram jogadas em um salão especial, com peças e tabuleiro de madeira artesanalmente trabalhados, o que representou um fator a mais na motivação dos atletas.
Além dos participantes do torneio, foi possível ver grandes jogadores (que, obviamente, não mais podiam ser classificados como “amadores”) prestigiando as partidas. Análises, partidas relâmpago, acesso à internet e outros fatores contribuíram para que esse torneio ficasse marcado, pelo segundo ano consecutivo, como um dos principais no calendário anual do Clube de Xadrez de Curitiba.
O torneio foi muito disputado do começo ao fim, com muitas partidas indo para a decisão nos 10 minutos finais. Apesar da acirrada disputa, um jogador claramente se destacou: Geanfrancesco Pereira, de Santa Catarina, venceu as seis primeiras partidas e garantiu o título com um empate na última rodada. Junto com o troféu de campeão e os R$ 300,00 de premiação, Geanfrancesco garantiu vaga para a semifinal do Campeonato Brasileiro e para o Campeonato Mundial Amador de 2010.
Em segundo lugar ficou Leandro Salles, de Curitiba, com 6 pontos em 7 rodadas, e em terceiro ficou Derlei Florianovitz, de Chapecó, com 5,5 pontos. Na cerimônia de premiação, além de troféus e medalhas distribuídos nas diversas categorias e até o décimo lugar geral, foram sorteados brindes gentilmente fornecidos pela empresa Atto Informática (site: www.a7telecom.com.br), a patrocinadora do evento.
Além do evento principal, aconteceu na noite de sábado o já tradicional torneio de blitz em que os jogadores com maior rating dão vantagem de 6’ x 4’ para os jogadores de menor rating. O MF Adwilhans Souza venceu o torneio com 6,5 pontos em 7 rodadas. Em segundo, empatados com 5,5 pontos, ficaram o MF Ernani Choma, o MF Bolívar Gonzalez e Joaquim Deus Filho.



Geanfrancesco Pereira recebe o troféu de campeão do AI Carlos Calleros, do vice-presidente Adwilhans Souza e do Diretor Técnico Marcio Vargas.




Membros da diretoria do CXC (Acyr, Murilo e Ulisses) e o AI Calleros com o Sr. Horácio Lang, da empresa Atto Informática, patrocinadora do evento.



Você sabia?
O MF paranaense Vitório Chemin completou 59 anos no início de maio, e com o intuito de parabenizá-lo o Clube de Xadrez de Curitiba organizou um torneio relâmpago de aniversário. Vitório, que ainda joga ativamente, teve importantes participações em diversos Campeonatos Brasileiros, Jogos Abertos do Paraná e Campeonatos Paranaenses.
Fica aqui nesta nota a homenagem do Clube ao MF Chemin, que com seu bom humor, irreverência e sua filosofia de vida, inspira muitos jovens enxadristas a seguir um caminho de sucesso pelo mundo das 64 casas.



MF Vitório Chemin, que completa 59 anos no início de maio.

Maiores informações sobre o CXC pelo site www.cxc.org.br ou pelo telefone 41-3222-4539

terça-feira, 12 de maio de 2009

Boletim Informativo CXC - Abril 2009


Entrevista: Dr. Mauro de Athayde (parte 3)


LS: Como era o estudo do xadrez na sua época?
MA: Hoje isso é algo que está muito facilitado. Se você, por exemplo, quer jogar uma variante X da Índia do Rei ou Siciliana, você puxa ali N partidas, milhares de partidas, então ficou muito facilitado. Você quer uma variante, você pega direto pela variante. Naquela época não tinha muitos recursos, era mais baseado nos livros, a maioria importados, que os argentinos compravam. Tinha uma revista chamada Ajedrez e outra inglesa que se chamava Chess.

Então o estudo era muito diferente e muito difícil, você tinha que sentar, analisar tudo por conta.
Antes, quando eu queria jogar uma variante, eu pegava as revistas, selecionava as partidas que continham aquelas linhas de jogo, às vezes transcrevia para outro lugar, para começar a ter uma base. Mas ali cada um ia por conta, era mais na base da imaginação. Alguns jogadores chegaram a fazer uma teoria, Steinitz, Lasker. Hoje o progresso tecnológico é determinante. Antes o xadrez era mais veterano também, o Souza Mendes, por exemplo, foi campeão [brasileiro] com 68 anos. Hoje o xadrez é mais um jogo de jovens, eles têm uma memória boa. Hoje garotos com 14, 15 anos já são Grandes Mestres. Além da informação tem que ter o talento individual.


LS: O senhor mantém uma pasta com as suas partidas?
MA: Eu sou meio relaxado, eu tenho algumas. Tem gente que pergunta: “Cadê as partidas, cadê
suas partidas?”. Eu tenho algumas, mas a gente perde. Saíram algumas na internet. Eu estou para fazer uma coletânea, o [Henrique] Marinho que me incentiva a fazer uma coletânea com as melhores partidas.


LS: Por que você acha que há poucas mulheres que jogam xadrez? Antes também era assim?
MA: É, o Brasil até teve algumas. Em um Brasileiro que eu joguei, teve um Feminino paralelo, teve umas argentinas que jogaram com as brasileiras. Naquela época tinha a Ruth Cardoso, e outras que agora não lembro, a Dora Monteiro. Já havia naquele tempo. Agora, hoje já tem mais, depois que as Polgar surgiram. Tem as chinesinhas que jogam.
Não sei se é uma diferença de sexo ou cultural. Hoje tem as russas e o nível está ficando altíssimo.
No passado teve a Vera Menchik, que foi bem famosa.


LS: Como o Sr. enxerga o surgimento de outros países no cenário mundial do xadrez?
MA: O esporte está mudando. Países que, pessoalmente, eu achava que não tinham xadrez, hoje
tem. A China surgiu de repente. Um país do qual eu nunca tinha ouvido falar de xadrez, o Vietnã, ficou em quinto lugar na Olimpíada, e eu nunca tinha ouvido falar em vietnamita jogando xadrez [risos]. Já o Japão, por exemplo, o jogo deles é outro. O jogo lá é o tal de Go, é complicado, joga com as peças para disputar territórios, é o jogo oficial lá. O Marinho joga o Go, até um dia ele quis me ensinar, mas eu não consegui aprender o espírito da coisa, que é ocupar espaços, com as peças todas iguais.
Texto do Boletim informativo do Clube de Xadrez de Curitiba do mes de Abril de 2009 - Entrevista de Leandro Salles. www.cxc.org.br