Aulas de Xadrez

3º Torneio Internacional de Concórdia - R$9.000,00 em prêmios

quinta-feira, 29 de julho de 2010


ADMINISTRAÇÃO DO RISCO EM POSIÇÕES CRÍTICAS

PARTE II


I - INTRODUÇÃO

Na primeira parte desse trabalho, foi introduzido o conceito de Administração do Risco aplicado ao Xadrez, especificamente no tocante à análise de posições criticas.

Foram enfocados os aspectos de aleatoriedade e incerteza que cercam uma partida de xadrez, bem como algumas das variáveis que devem caracterizar o processo de análise, consistentes em:

a)- Variáveis definidas ou conhecidas
b)- Incógnitas.

Por variáveis conhecidas ou definidas, foram caracterizadas aquelas que, desde o início do processo de análise, podem ser identificadas de antemão, tais como o estilo de jogo, do jogador e de seu adversário, circunstâncias em que será jogado o torneio ou match, posição dos jogadores na tabela, performance-objetivo, estado físico e psicológico, e outras.

Como incógnitas, caracterizam-se variáveis que tem sua ocorrência apenas e durante o desenrolar da partida e que, por esse mesmo motivo, não podem ser conhecidas de antemão. Resta assim, administrá-las mediante processos como alteração de planos traçados, mudança de objetivos, profilaxia, transformação de vantagens, resistência técnica e psicológica ante os objetivos do oponente, e outras.

Pode-se organizar a ação das variáveis conhecidas e das incógnitas em relação aos objetivos que se quer obter na partida.

Designando-se por “y” como sendo o objetivo a ser atingido, segue-se que ele pode ter um de dois valores, em termos de pontos:

1 para vitória;

0,5 para empate.

Segue-se assim que o objetivo “y” é dependente das variáveis conhecidas a priori e das incógnitas que, pelo acaso e aleatoriedade, ocorrerem durante a partida. Nesses termos, pode-se dizer que “y”, o objetivo, é função de variáveis conhecidas x, z, t, w, etc., e das incógnitas i1, i2, i3. ou seja:


Y =f( x, z, t, w...), f(i1, i2, i3...)




II – ALTERNATIVAS NA ADMINISTRAÇÃO DO RISCO

1. Abordagem na consideração das variáveis conhecidas a priori

Em termos de Administração do Risco em posições críticas, o sucesso ou o fracasso na partida, em grande parte, é dependente da profundidade e abrangência com que o jogador maneja as variáveis conhecidas.

Se o jogador não aprofunda convenientemente seus objetivos e seu preparo, ele estará administrando o risco de modo menos completo, talvez preferindo tratar com as incógnitas que ocorrerão durante a partida e confiando em sua capacidade nesse aspecto. Prefere, por exemplo, dar mais ênfase ao descanso, com uma boa noite de sono, do que ficar até tarde da noite preparando a posição critica para assim, cansado e mal dormido, no dia seguinte enfrentar o adversário em condições físicas menos favoráveis.

Ainda, durante os meses e dias que antecedem o torneio, o jogador poderá preferir aprofundar seus conhecimentos em áreas específicas, por exemplo, analisando posições criticas que se relacionem com finais de partidas, em vez daquelas que caracterizam situações de meio jogo. Tem em mente que, se eleger aberturas com levem a simplificações rápidas, poderá tirar vantagem das complexidades dos finais resultantes, traçando assim ações de preparação prévia com esse objetivo.

Como pode ser observado, as variáveis são inúmeras, bem dentro do escopo interminável e infinitamente complexo pertinente ao Xadrez.

E todo esse preparo é sujeito a falhas e omissões, que podem constituir o motivo das derrotas e dos empates indesejados.


2. Abordagem na consideração das incógnitas, durante o desenrolar da partida

Além dos erros e omissões que são comuns durante uma partida, a falha na Administração do Risco nessa fase pode advir da incapacidade do jogador de reagir corretamente ante as exigências, táticas e posicionais, colocadas por seu adversário. Nesse contexto, joga papel preponderante o preparo psicológico e a pressão por resultados favoráveis.

Por exemplo, se o jogador está jogando para ganhar, pode avaliar incorretamente determinadas posições, nas quais acredita estar superior, onde na realidade ocorre equilíbrio, material, posicional ou dinâmico. Pressionado em seu lado psicológico, deixa de perceber detalhes importantes na posição, incorrendo assim em erros de avaliação, perdendo o rumo.

Ainda, esse estado de ânimo pode ter como causa o malogro de sua preparação prévia para enfrentar o adversário. As posições críticas que preparou não ocorreram, e foi seu oponente que teve o mérito de chegar a posição diversa, talvez até preparada por ele. Isso mexe com o ânimo do jogador, a ponto dele perder o equilíbrio psicológico, muito mais quando se trata de partida importante para seus objetivos.  

Nesse ponto, em vez de se concentrar e encontrar o melhor modo de se antepor aos fatores imprevistos que se apresentaram até aquele momento, o jogador passa a cometer uma série de erros, ou algum tipo de erro grave, comprometendo seu desempenho na partida. Ocorreu assim, falha na administração do risco frente às incógnitas, ou fatores imprevistos.



III – ESTUDO DE CASO

A Décima - Segunda e ultima partida do Match pelo Título Mundial – FIDE 2010

Essa partida, de grande dramaticidade, constitui bom exemplo de como os elementos de aleatoriedade e incerteza, aliados a propósitos previamente traçados pelos jogadores, jogam papel preponderante no resultado final, tudo sob o ângulo da Administração do Risco.

Primeiramente, há que observar as circunstâncias anteriores à realização da partida:

O Match, até a partida anterior, desenrolou-se em clima de grande competitividade. E nem poderia ser diferente, ante o estilo do desafiante e ao excelente preparo técnico do detentor do título.

Topalov fez de tudo para quebrar a resistência de Anand, obtendo resultados que poderiam ser considerados como satisfatórios, até certo ponto. Por várias ocasiões, inferior, administrou o risco antepondo ao adversário dificuldades para este obter a vitória, que então poderia antecipar o resultado do encontro. Pelo menos em duas partidas, e em cada uma delas em várias ocasiões, salvou o meio ponto com esse procedimento de tratamento das incógnitas das partidas.

Por seu turno, Anand, confrontado em duas ocasiões com dificuldades para igualar a partida, cometeu erros graves, cedendo o ponto inteiro ao adversário. Isso ocorreu na primeira e na oitava partida.

Por outro lado, é possível que ao desafiante não interessasse o empate na ultima partida, em face da consagrada capacidade do Anand no jogo de partidas rápidas. Raramente se apura no tempo, e foi vencedor de vários Ambers. Assim, o preparo de Topalov,, jogando de brancas, seria para tentar decidir o resultado do match a seu favor durante a ultima partida, não interessando a ele, em tese, ir para as partidas rápidas.

Diante dessas circunstâncias, a décima-segunda partida do match abriu com um Gambito Recusado da Dama.

V. Topalov – V. Anand
World Championship game 12
(diagramas e Comentários em inglês por Susan Polgar)

1. d4 d5 2. c4 e6 3. Nf3 Nf6 4. Nc3 Be7 5.
Bg5 h6 6. Bh4 O-O 7. e3 Ne4

A primeira surpresa para Topalov. Anand elege a Variante Lasker, trocando de imediato dois pares de peças menores e tentando simplificar ao máximo a posição. Assim, resta claro que seu objetivo principal é um empate, levando o encontro para as rápidas, onde se sente confortável.

 (This is not the most popular line for Black but as a surprised weapon for one game, it can be effective as Anand needs to hold this game.)

8. Bxe7 Qxe7 9. Rc1

(We have the Queen's Gambit declined for the first time in this match. It looks like Anand is choosing something safe for most chances to hold.)

9...c6 10. Be2 Nxc3 11. Rxc3 dxc4 12. Bxc4
(We are still in opening book. This is a relatively safe opening for Black.)

12....Nd7 13. 0-0 b6 14. Bd3 c5

Abrindo a diagonal h1-a8. Se brancas dominam essa linha, resta às pretas o domínio da diagonal f1-a6, que também é importante para dificultar o posicionamento das peças brancas.

O campeão se antecipa ao desafiante, desviando-o de linhas que, certamente, a equipe Danailov-Cheparinov & cia. teriam preparado para esse encontro. Por outro lado, as posições resultantes desses câmbios devem ter sido cuidadosamente avaliadas por Anand. Uma coisa é certa: ele não iria se aventurar em uma linha simplificadora, que lhe custa algumas debilidades na estrutura de seus peões da ala da dama, como será visto em frente, se isso não fosse compensado de alguma outra forma. Aqui, essa “outra forma” resulta ser o confronto de Topalov com uma situação imprevista para ele, bem como o equilíbrio dinâmico para compensar as debilidades já mencionadas.

Pura Administração do Risco das variáveis conhecidas!


( The idea for Black is simple. He wants to have a symmetrical pawn structure. White still has a small advantage due to space advantage.)

15. Be4 Rb8 16. Qc2 Nf6
(I know many players who play this line as Black. It is very difficult to win this type of position as White. White's temporary space and piece development advantage will evaporate soon. Here is a possible line: 17. dxc5 Nxe4 18. Qxe4 bxc5 19. Qc2 Bb7 20. Nd2 Rfd8 21. Nb3 c4 22. Rxc4 Ba6 23. Rc7 Rbc8 24. Rxe7 Rxc2 =. This is also equal: 17. dxc5 Nxe4 18. Qxe4 bxc5 19. b3 Bb7 20. Qf4 Rfd8 =)

Estou convicto de que esse lance, que dá causa ao aparecimento de um peão isolado na coluna c (portanto uma debilidade concreta), foi cuidadosamente preparado por Anand antes da partida. Conforme será visto, sua opção foi pelo câmbio desse cavalo pelo ativo bispo das brancas.  Assim, seu próprio bispo teria um escopo de ação mais efetivo. A contraparte é que o cavalo de Topalov pode tanto colaborar no ataque ao peão preto c, como bloquear seu avanço à casa c4. Esses planos todos, em uma partida de tanta importância, não podem ter suas ocorrências atribuídas ao acaso. É bem provável que isso tudo fez parte de acurada preparação prévia.

(The reason why Anand cannot simply play cxd4 is because of the following: 16... cxd4 17. Nxd4 Bb7 18. Rc7 +/-)

17. dxc5 Nxe4
Desaparece assim o ativo bispo branco. Atingido esse objetivo, Anand vai agir no sentido de ativar ao máximo seu bispo remanescente.

18. Qxe4 bxc5

Pretas ficam com um peão isolado na coluna c, sujeito ao ataque das peças pesadas brancas. Em compensação, tentam manter o equilíbrio dinâmico mediante ação nas colunas b e c, e na diagonal h1-a8. O curioso é que Topalov, mestre nesse tipo de jogo dinâmico, tenha permitido ao seu adversário atingir essa posição, em uma curiosa inversão de papéis. Por certo, ao administrar as incógnitas advindas da inesperada Variante Lasker, tenha confiado mais na exploração da estrutura fragmentada das pretas na ala da Dama. Começa aí, provavelmente, a pressão psicológica sobre o desafiante, ao ser confrontado inversamente com suas próprias preferências.

A abordagem da administração do risco na presente posição indica os seguintes fatos:
a)- Ante a abertura de PD de Topalov, diversamente das partidas anteriores, Anand decide entrar nas linhas do Gambito da Dama.
b)- Anand confronta Topalov com uma linha pouco utilizada, qual seja a Variante Lasker, alcançando posição simplificada e um tanto restringida.
c)- Para não dar a Topalov a oportunidade de assumir uma iniciativa concreta, Anand entra em uma linha onde troca seu cavalo pelo ativo bispo branco, à custa da fragmentação de sua estrutura de peões na ala da dama.
d)- A debilidade estrutural assim imposta às pretas, resta compensada dinamicamente pela sua atividade de peças pelas colunas b e d e pelas diagonais h1-a8 e f1-a6.
e)- Parece ocorrer assim uma inversão de preferência de jogo: Topalov que seria aquele a quem gostaria de jogar de forma dinâmica, agora se vê às voltas com a exploração das debilidades estruturais de Anand, enquanto este procura ativar suas peças ao máximo para impedir a progressão do ataque do desafiante.

(Now that Topalov is able to avoid the symmetrical pawn structure, his main target will be the c5 pawn.)

19. Qc2 Bb7
Como já mencionado, a opção de Anand pelo jogo dinâmico de suas peças em contraposição à debilidade estrutural de seus peões da ala da dama, aqui resta concretizada na ativação de suas torres pelas colunas b e d, e de seu bispo pelas diagonais h1-a8 e f1-a6, segundo as necessidades.

(White retreats his Queen behind the Rook to put more pressure on the c pawn. Now is not the time for Black to play passively. Anand indirectly defends the c5 pawn with Bb7. If 20. Rxc5 then Bxf3 21. gxf3 Rxb2 22. Qxb2 Qxc5 =+)

E aqui está o testemunho da Susan Polgar sobre a questão de Administração do Risco pela análise de posições criticas (variáveis conhecidas)  procedida por Anand:

(It is very clear that Anand and his team have prepared this very practical and safe line. It is a wise choice not to take any chances to send this match to the rapid playoff.)

20. Nd2
(Topalov is following the idea I previously mention back in move 15. He is doing the best he can to keep the remaining pieces on the board, stabilize the Kingside, then continue to put more pressure on the c5 pawn. This is his only chance, as slim as it may be, to win.)

20...Rfd8
(If this game ends with a draw, I think Anand will have a small edge in the rapid playoff.)

21. f3

Considero que, a partir desse lance, os dois jogadores passam a administrar seus riscos frente às incógnitas da partida. Assim, a fase de preparação prévia administrada até aqui por Anand dá-se por concluída, nesse ponto.

De um lado, Topalov tenta limitar ao máximo a pressão exercida pelo bispo preto na diagonal h1-a8, para então prosseguir em seu intento de assédio ao peão c.

De outro, Anand procura objetivos alternativos para ação de suas peças pesadas e de seu bispo, procurando assim compensar dinamicamente suas debilidades estruturais.

Aqui, a questão reside em quem saberá administrar seus riscos da melhor forma. Considerar ainda que, segundo as atitudes de Topalov, a ele, ao menos por ora, não interessava o meio ponto. Esse fato coloca Anand em certa vantagem psicológica, porque para ele o empate seria um resultado satisfatório.

(The idea is to block the effectiveness of Black's b7 Bishop. Then he can re-focus on the c5 pawn. Anand will try not give Topalov time to do that. 21...Qg5 is possible right now.)

21...Ba6
(This is OK too. Anand spent a considerable amount of time for this move. He understands that is he fails to keep White busy, he will have a problem holding on to the c pawn and that can mean the game. White should put his f1 Rook on c1.)

22. Rf2
(This is an odd choice for Topalov. The problem is Anand can mount his pieces on the d file to go after the Knight as White may face back rank problem. I like 22. Rc1 a lot better.)

22...Rd7
(Following the plan of doubling up the Rooks on the d file. In my opinion, the position is equal.)

23. g3?!

Sinal evidente de que Topalov está perdendo o controle da partida. Sua administração do risco aqui, começa a falhar ao aumentar o escopo de ação do bispo preto, porque agora o peão de f3 começa a ser alvo de ataque pela diagonal h1-a8. Isso, conjugado com o avanço do peão de f5, do rápido acesso da Dama preta à ala do Rei, e ao domínio das torres pelas colunas b e c, conferem vantagem às pretas, na minha opinião.

É importante destacar aqui, que lances como 21.f3, 22.Tf2 e 23.g3 envolvem falha na administração do risco por parte de Topalov, ante a iniciativa cada vez maior desenrolada pelas pretas. Anand vai paulatinamente aumentando o escopo de ação de suas peças, e agora tem diante de si concreta alternativa de ataque pelo centro, ante a debilitada posição dos peões brancos do centro e da ala do rei.

A vantagem das pretas, nesse ponto, pode não ser suficiente para a vitória, mas ao menos o campeão tem diante de si objetivos de ataque muito mais contundentes que aquele concedido ao seu adversário.

(Topalov is creating a bubble for his King. Once he can neutralize Anand's threats, he can then turn his focus back on the c5 pawn which is going nowhere. Both players understand the huge importance of this game. Therefore, they are very patient so far.)

23...Rbd8 24. Kg2 24...Bd3 25. Qc1
(Nothing has changed so far. White is still focusing on the c5 pawn. I personally find this game exciting. There is very little going on other than the c5 pawn. One will do everything possible to go after it which could mean a victory while the other one will do everything to either defend it or deflect it with counter threats elsewhere. The self imposed Sofia rule by Topalov gives the fans a chance to see more endgames rather than 20-25 move draw in equal positions.

Even though the position is equal, it is a little easier to play with Topalov's position. He knows exactly what he needs to do. There is a concrete target to aim for.)

O comentário de Susan Polgar sobre “a auto-imposição da Regra de Sofia” por Topalov coloca em relevo importante questão psicológica atuando sobre a partida. Na minha opinião, essa limitação de atuação resulta ser prejudicial ao desafiante, que assim tem de lidar com mais um elemento de imprevisão na partida. Se a posição é igual, como asseverado por Susan, então nada mais resta ao desafiante que manter a igualdade ou propor (ou aceitar) o empate. Em vez disso, Topalov parte para alternativas cada vez mais forçadas, buscando o desequilíbrio da partida. Estatisticamente, tratando-se de jogadores de nível como os dois, isso não costuma dar resultados positivos.

25...Ba6
(Here is an interesting line: 26. Ne4 Rd1 27. Qc2 f5 28. Nd2 Re1 29. Rxc5 Rxe3 30. Rc7 Rd7 =)

26. Ra3
(If 26. Rxc5 Rxd2 27. Rxd2 Rxd2+ 28. Qxd2 Qxc5 and Black wins.)


26...Bb7

Ao jogar 26.Ta3, Topalov recusa empatar por repetição de lances que poderia se seguir a 26.Dc2. Prefere agir no sentido de manter suas peças dirigidas às debilidades de Anand.

Por sua vez, aproveitando detalhe tático (o peão de a7 é tabú), o campeão posiciona seu bispo na importante diagonal h1-a8, dessa vez mirando agressivamente para a agora enfraquecida posição do Rei branco.

(White obviously cannot play 27. Rxa7 because of the discovery with Bxf3+. However, Topalov can play 27. Nb3 now. The battle for the c pawn continues.)

27. Nb3 Rc7
(Perhaps 28. Rc2 next. 28. e4 is also interesting because 29. Rxa7 is a real threat since there is no longer any discovery check.)

28. Na5
Além de tentar o câmbio pelo ativo bispo preto, o desafiante procura também ativar ao máximo suas peças. Tem uma torre ativa, à frente da cadeia de peões da ala da dama, e seu cavalo pode tanto ir para uma posição de bloqueio em c4 como atacar diretamente ao peão de c5 a partir de b3.

(Topalov wants to trade for Black's Bishop. Anand should not allow this trade as it would be more difficult for Black without the Bishop.)

28...Ba8
Ao recusar a troca de peças menores, Anand investe em sua iniciativa pelo centro e pela ala do rei para combater o ataque das brancas pela ala da dama.

(A curious move by Anand. Yes, he wants to keep his Bishop. Yes, he wants to keep his Bishop on the h1 - a8 diagonal. Even though it is not a blunder, this is still an unexpected move. Topalov can bring his Rook back to c3 now.)

29. Nc4 e5

Colocando mais pressão sobre a ala do Rei. Anand avalia aqui, provavelmente, que os objetivos que traçou antes da partida foram alcançados. Agora, procura administrar o risco frente às incógnitas da melhor forma que entende: mediante ataque à comprometida estrutura de peões brancos que guarnecem o monarca de Topalov. Avalia que a perda de qualquer dos peões (c5 ou a7) seria compensada por esse ataque.

(Anand cannot just sit back and allow Topalov to make a big play for his c5 pawn. He must continue to put pressure on the Kingside.)

30. e4
Procurando o controle efetivo das casas d5 e f5 mediante Cc4-e3.
Por outro lado, permite ao campeão a potencialização de ação do bispo de a8 mediante ruptura em f5.

 (Black must play f5 now or else White will play Ne3 with a good advantage.)

30...f5
(Topalov must be careful here. Anand wants to open up the Kingside, especially the h1 - a8 diagonal. Perhaps 31. Nd2 is needed.)

31. exf5?
Na minha opinião, colocando a partida nas mãos de Anand. Topalov aqui sucumbe ante a pressão exercida pelas incógnitas da partida, e passa a administrar seus riscos de modo cada vez mais deficiente.

Talvez o mais indicado aqui seria um reagrupamento à base de Cc4-d2 e Ta3-e3. Para se opor a esse plano, Anand poderia trocar peões e peças menores em e4, mantendo assim o equilíbrio.

Agora, a ação do bispo de a8 é potencializada ao máximo.

(This is very dangerous. Anand can play 31...e4 now with serious threats.)

31...e4 32. fxe4?
Outro erro, dessa vez mais grave. Permite a montagem de uma “máquina” mortal.

(This is looking very bad for White now. We may not go to the playoff after all. 32...Qxe4 and Black has a strong attack. This is almost over. 32...Qxe4+ 33. Kh3 Rd4 34. Ne3 Qe8 35. g4 h5 -+)

32...Qxe4 33. Kh3

Para não perder a Dama, Topalov tem de levar seu Rei a uma região onde ficará mais desprotegido ainda.

(It is all in Anand's hands now. He will win this match and retain his title if he continues correctly.)

33...Rd4
(So far so good.)

34. Ne3
Única. 34.Tf4 falha por 34…Dg2+ 35.Rg4 De2+ .

(I don't think Topalov saw 34....Qe8 here which gives Black a win. I think he missed it. If Anand wins this game, I will post my final comments about the match as well as bring you the information about the closing ceremony. Please be sure to check back to the final wrap up.)

34...Qe8
(This is the key move and Anand found it. If 35. g4 then h5 -+ It is just about over.)

35. g4 h5
(Anand is like a Tiger smelling blood. He feels it. He knows that the World Championship is in his hands now. This is a shocking ending! 31. exf5 and 32. fxe4 are 2 horrendously bad moves.)

36. Kh4
Para evitar sucumbir rapidamente, Topalov é obrigado a colocar seu Rei em posição cada vez mais exposta. Agora sobrevém a abertura total da ala de rei. Isso também tem seu lado positivo para Topalov, que assim poderá alimentar esperanças de contra ataque pela coluna f, mantendo a torre de a3 na defesa da terceira fila e no ataque ao peão de a7,  que lhe assegura certas chances em algumas variantes de defesa.

Porém, como sempre ocorre nesses casos, sua tarefa é hercúlea, e quase sem esperanças. Aqui, deve esperar sobreviver apenas mediante alguma falha de Anand na condução do ataque. Lembrar que isso já ocorreu diversas vezes no match, motivo pelo qual a administração do risco, por essa via, se constitui no procedimento indicado.

(The King cannot possibly survive this. 36...Qd8+ is the quickest way to close out this game.)


36...g5+

Também Anand, por seu turno, começa a sofrer pressão, aqui no sentido de obtenção da vitória de forma mais rápida. E isso já ocorreu em partidas anteriores. Como se vê, o manejo das incertezas da partida não escolhe jogador, seja ele aquele que tem ou que não tem a vantagem. Talvez 36...Dd8 teria sido melhor.

(This is not the most accurate continuation for Anand. 36...Qd8 would have been much more decisive.)

37. fxg6
(Black should still win this but it is more difficult than the previous suggestion. This is the winning path for Anand: 38. Qf1 Rxg4+ 39. Kh3 Re7 -+)

37...Qxg6 38. Qf1
A administração do risco de Topalov frente às incógnitas da posição passa pela possibilidade de um contra ataque pela coluna f, contra o agora também desguarnecido rei negro. Topalov procura, ele também confrontar Anand com suas próprias dificuldades em arrematar a partida. Com esse objetivo, permite o perigoso xeque em g4, ao mesmo tempo em que mira para uma invasão em f8. A questão aqui se resume a saber se Anand será capaz de contornar o contra ataque de Topalov, e assim obter o “match point”.

(This is perhaps one of the biggest blunders in the final game of a world championship match. I am still stunned that Topalov did not sense any danger whatsoever by opening up the h1 - a8 diagonal.)

38...Rxg4+
(This is the final hurdle for Anand and he found it.)

39. Kh3
(Now 30...Re7 and it is basically hopeless for White.)

39...Re7!

Eis aí! Com a mortal ameaça Te7 x e3+  -  Th4+ e Dg4 ++.

Anand administra seus riscos de modo exato. Permite o xeque em f8, mas apenas para Topalov entrar em um final totalmente perdido, seja de Dama contra Torre e Cavalo, ou de Reis e peões.

Lembrar que, nesse ponto, a partida assume um caráter eletrizante, onde o controle dos nervos é peça fundamental para o sucesso, seja na defesa ou no ataque. Em grande número de posições dessa natureza os jogadores perdem o controle, e ou deixam escapar a vantagem arduamente obtida, ou sucumbem rapidamente ante a pressão colocada pelo oponente. Esses são os elementos de imprevisão e incerteza que cercam partidas como essa, a ponto de levar um GM “top ten” como Topalov a cometer equívocos graves como 31.exf5? e 32.fxe4?, em uma partida decisiva pelo título mundial.

(Here are a few possible lines: 40. Qd1 Rd4 41. Nf5 Qxf5+ 42. Rxf5 Rxd1 43. Rxh5 Rg7 44. Rg3 Bd5 -+ or 40. Rf8+ Kh7 41. Rh8+ Kxh8 42. Qf8+ Qg8 43. Qh6+ Rh7 44. Qf6+ Rhg7 45. Qh6+ Qh7 46. Qxh7+ Kxh7 47. Nxg4 hxg4+ -+ Everything looks bad for Topalov.)

40. Rf8+
(The last hope for Topalov is for Anand to play 40... Kg7 41. Nf5+ Kh7 42. Rg3. However, after the game, I went through this line deeper and it was lost for Topalov anyway.)

40...Kg7
Sem temer o xeque de cavalo em f5, avaliando corretamente, mesmo ante a pressão existente, que o final será favorável às pretas.

(Although 40...Kh7 is a cleaner and more precise, 40...Kg7 also wins after I looked at it again 41. Nf5+ Kh7 42. Rg3 Rxg3+ 43. hxg3 Qg4+ 44. Kh2 Re2+ 45. Kg1 Rg2+ 46. Qxg2 Bxg2 47. Rf7+ -+)

41. Nf5+ Kh7 42. Rg3 Rxg3+ 43. hxg3 Qg4+ 44. Kh2 Re2+ 45. Kg1 Rg2+ 46. Qxg2 Bxg2 47. Kxg2

Entrando em um final de Dama contra Torre e Cavalo, totalmente sem esperanças. Também, em caso de 47.Tf7+, o final de Reis e peões resultante seria igualmente sem esperanças.

Esse arremate demonstra que Anand, ao contrário de Topalov administrou seus riscos de forma mais consistente, contornando todas as dificuldades antepostas pelo seu adversário.

(Another option is 47. Rf7+ but Anand can still win with this: 47... Kg6 is a must move 48. Rg7+ Kxf5 49. Rxg4 hxg4 50. Kxg2 Ke4 51. Kf2 Kd3 -+)

47...Qe2+ 48. Kh3 (This is now completely hopeless for Topalov. Rook and Knight cannot hold this position. Now a simple 48...c4 wins.)

48...c4
O comentário de Susan Polgar, a seguir, coaduna-se perfeitamente com os conceitos de administração do risco abordados nesse trabalho.


(The final game usually comes down to nerve as we can see today. In this game, Anand was more composed. Even though both sides made mistakes, Topalov was making more and bigger ones and this costs him the game. )


49.
a4 a5 50. Rf6
(Anand's advantage is overwhelming.)

50...Kg8
(Topalov's chances to hold are very slim. Anand has plenty of time and I think the dangerous tactics are now behind him. Now it is simply a matter of technique.)

51. Nh6+ Kg7 52. Rb6 Qe4 53. Kh2
(Now Anand can simply get his Queen behind the b2 pawn then push c3. For example: 53...Qc2+ 54. Kh3 Qb1 -+)

53...Kh7
(Topalov has no practical chances to hold this position. He is fighting on because it is the final game of the world championship.)

54. Rd6 Qe5 55 Nf7 Qxb2+ 56. Kh3 56 Qg7  0-1


IV – CONCLUSÃO

Os conceitos de administração do risco, mencionados nesse trabalho, podem ser aplicados com sucesso em qualquer partida. Como se pode perceber, envolvem técnicas de preparo prévio e recursos para permitir a solução dos problemas que, certamente, ocorrerão durante o desenrolar dos acontecimentos. Como sempre, obterá sucesso aquele jogador que, aliando seu talento à técnica, ao preparo e ao controle da pressão psicológica, melhor souber contornar todas essas dificuldades.

Na partida aqui apresentada, verifica-se que o desafiante, ao ser confrontado com uma defesa fora de suas previsões, não obteve sucesso na administração de seus riscos. Limitado por uma absurda atitude de auto-imposição de regra de empate, ainda mais quando cotejado com a possibilidade de ingressar nos play-offs, onde eventualmente seu oponente poderia levar certa vantagem pelo seu retrospecto técnico, forçou uma posição simplificada e cometeu erros graves na condução de seu plano de jogo. Aí, quando já estava em situação desesperadora, tentou embaralhar o adversário antepondo a ele dificuldades adicionais para obtenção do ponto, atitude que já havia lhe rendido dividendos polpudos em outras partidas. Dessa vez, o campeão soube, como já o fizera na segunda partida, administrar seus riscos de forma segura, o que lhe valeu a vitória no match.

Isso demonstra que, por mais categorizado que seja o jogador, - e aqui estamos falando de dois mestres jogando pelo título máximo – mesmo assim eles estão sujeitos à eficiente administração de seus riscos, ante a imprevisão e às incertezas que cercam uma partida. Quem soube melhor administrar seus riscos, antes e durante a partida, saiu-se vencedor da contenda.

Muito ainda pode ser dito sobre essa matéria. O que aqui foi exposto apenas raspa de leve a superfície de um oceano de variáveis e incógnitas que permeiam uma partida. Assim, o objetivo desse trabalho, consistindo em mostrar uma parte infinitesimal do grande complexo de administração do risco necessário para se jogar Xadrez, pode ser ampliado e aprofundado na medida das necessidades e possibilidades de cada jogador. Certamente, com isso alcançará resultados plenamente satisfatórios, porque estará imprimindo ao seu jogo um controle razoável da incerteza e da aleatoriedade.

Obs.: texto da Parte II da palestra apresentada no Clube de Xadrez de Curitiba pelo ex-campeão paranaense Ernesto Pereira,  elap@terra.com.br em 12/05/2010. www.cxc.org.br

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