quinta-feira, 29 de julho de 2010


ADMINISTRAÇÃO DO RISCO EM POSIÇÕES CRÍTICAS

PARTE II


I - INTRODUÇÃO

Na primeira parte desse trabalho, foi introduzido o conceito de Administração do Risco aplicado ao Xadrez, especificamente no tocante à análise de posições criticas.

Foram enfocados os aspectos de aleatoriedade e incerteza que cercam uma partida de xadrez, bem como algumas das variáveis que devem caracterizar o processo de análise, consistentes em:

a)- Variáveis definidas ou conhecidas
b)- Incógnitas.

Por variáveis conhecidas ou definidas, foram caracterizadas aquelas que, desde o início do processo de análise, podem ser identificadas de antemão, tais como o estilo de jogo, do jogador e de seu adversário, circunstâncias em que será jogado o torneio ou match, posição dos jogadores na tabela, performance-objetivo, estado físico e psicológico, e outras.

Como incógnitas, caracterizam-se variáveis que tem sua ocorrência apenas e durante o desenrolar da partida e que, por esse mesmo motivo, não podem ser conhecidas de antemão. Resta assim, administrá-las mediante processos como alteração de planos traçados, mudança de objetivos, profilaxia, transformação de vantagens, resistência técnica e psicológica ante os objetivos do oponente, e outras.

Pode-se organizar a ação das variáveis conhecidas e das incógnitas em relação aos objetivos que se quer obter na partida.

Designando-se por “y” como sendo o objetivo a ser atingido, segue-se que ele pode ter um de dois valores, em termos de pontos:

1 para vitória;

0,5 para empate.

Segue-se assim que o objetivo “y” é dependente das variáveis conhecidas a priori e das incógnitas que, pelo acaso e aleatoriedade, ocorrerem durante a partida. Nesses termos, pode-se dizer que “y”, o objetivo, é função de variáveis conhecidas x, z, t, w, etc., e das incógnitas i1, i2, i3. ou seja:


Y =f( x, z, t, w...), f(i1, i2, i3...)




II – ALTERNATIVAS NA ADMINISTRAÇÃO DO RISCO

1. Abordagem na consideração das variáveis conhecidas a priori

Em termos de Administração do Risco em posições críticas, o sucesso ou o fracasso na partida, em grande parte, é dependente da profundidade e abrangência com que o jogador maneja as variáveis conhecidas.

Se o jogador não aprofunda convenientemente seus objetivos e seu preparo, ele estará administrando o risco de modo menos completo, talvez preferindo tratar com as incógnitas que ocorrerão durante a partida e confiando em sua capacidade nesse aspecto. Prefere, por exemplo, dar mais ênfase ao descanso, com uma boa noite de sono, do que ficar até tarde da noite preparando a posição critica para assim, cansado e mal dormido, no dia seguinte enfrentar o adversário em condições físicas menos favoráveis.

Ainda, durante os meses e dias que antecedem o torneio, o jogador poderá preferir aprofundar seus conhecimentos em áreas específicas, por exemplo, analisando posições criticas que se relacionem com finais de partidas, em vez daquelas que caracterizam situações de meio jogo. Tem em mente que, se eleger aberturas com levem a simplificações rápidas, poderá tirar vantagem das complexidades dos finais resultantes, traçando assim ações de preparação prévia com esse objetivo.

Como pode ser observado, as variáveis são inúmeras, bem dentro do escopo interminável e infinitamente complexo pertinente ao Xadrez.

E todo esse preparo é sujeito a falhas e omissões, que podem constituir o motivo das derrotas e dos empates indesejados.


2. Abordagem na consideração das incógnitas, durante o desenrolar da partida

Além dos erros e omissões que são comuns durante uma partida, a falha na Administração do Risco nessa fase pode advir da incapacidade do jogador de reagir corretamente ante as exigências, táticas e posicionais, colocadas por seu adversário. Nesse contexto, joga papel preponderante o preparo psicológico e a pressão por resultados favoráveis.

Por exemplo, se o jogador está jogando para ganhar, pode avaliar incorretamente determinadas posições, nas quais acredita estar superior, onde na realidade ocorre equilíbrio, material, posicional ou dinâmico. Pressionado em seu lado psicológico, deixa de perceber detalhes importantes na posição, incorrendo assim em erros de avaliação, perdendo o rumo.

Ainda, esse estado de ânimo pode ter como causa o malogro de sua preparação prévia para enfrentar o adversário. As posições críticas que preparou não ocorreram, e foi seu oponente que teve o mérito de chegar a posição diversa, talvez até preparada por ele. Isso mexe com o ânimo do jogador, a ponto dele perder o equilíbrio psicológico, muito mais quando se trata de partida importante para seus objetivos.  

Nesse ponto, em vez de se concentrar e encontrar o melhor modo de se antepor aos fatores imprevistos que se apresentaram até aquele momento, o jogador passa a cometer uma série de erros, ou algum tipo de erro grave, comprometendo seu desempenho na partida. Ocorreu assim, falha na administração do risco frente às incógnitas, ou fatores imprevistos.



III – ESTUDO DE CASO

A Décima - Segunda e ultima partida do Match pelo Título Mundial – FIDE 2010

Essa partida, de grande dramaticidade, constitui bom exemplo de como os elementos de aleatoriedade e incerteza, aliados a propósitos previamente traçados pelos jogadores, jogam papel preponderante no resultado final, tudo sob o ângulo da Administração do Risco.

Primeiramente, há que observar as circunstâncias anteriores à realização da partida:

O Match, até a partida anterior, desenrolou-se em clima de grande competitividade. E nem poderia ser diferente, ante o estilo do desafiante e ao excelente preparo técnico do detentor do título.

Topalov fez de tudo para quebrar a resistência de Anand, obtendo resultados que poderiam ser considerados como satisfatórios, até certo ponto. Por várias ocasiões, inferior, administrou o risco antepondo ao adversário dificuldades para este obter a vitória, que então poderia antecipar o resultado do encontro. Pelo menos em duas partidas, e em cada uma delas em várias ocasiões, salvou o meio ponto com esse procedimento de tratamento das incógnitas das partidas.

Por seu turno, Anand, confrontado em duas ocasiões com dificuldades para igualar a partida, cometeu erros graves, cedendo o ponto inteiro ao adversário. Isso ocorreu na primeira e na oitava partida.

Por outro lado, é possível que ao desafiante não interessasse o empate na ultima partida, em face da consagrada capacidade do Anand no jogo de partidas rápidas. Raramente se apura no tempo, e foi vencedor de vários Ambers. Assim, o preparo de Topalov,, jogando de brancas, seria para tentar decidir o resultado do match a seu favor durante a ultima partida, não interessando a ele, em tese, ir para as partidas rápidas.

Diante dessas circunstâncias, a décima-segunda partida do match abriu com um Gambito Recusado da Dama.

V. Topalov – V. Anand
World Championship game 12
(diagramas e Comentários em inglês por Susan Polgar)

1. d4 d5 2. c4 e6 3. Nf3 Nf6 4. Nc3 Be7 5.
Bg5 h6 6. Bh4 O-O 7. e3 Ne4

A primeira surpresa para Topalov. Anand elege a Variante Lasker, trocando de imediato dois pares de peças menores e tentando simplificar ao máximo a posição. Assim, resta claro que seu objetivo principal é um empate, levando o encontro para as rápidas, onde se sente confortável.

 (This is not the most popular line for Black but as a surprised weapon for one game, it can be effective as Anand needs to hold this game.)

8. Bxe7 Qxe7 9. Rc1

(We have the Queen's Gambit declined for the first time in this match. It looks like Anand is choosing something safe for most chances to hold.)

9...c6 10. Be2 Nxc3 11. Rxc3 dxc4 12. Bxc4
(We are still in opening book. This is a relatively safe opening for Black.)

12....Nd7 13. 0-0 b6 14. Bd3 c5

Abrindo a diagonal h1-a8. Se brancas dominam essa linha, resta às pretas o domínio da diagonal f1-a6, que também é importante para dificultar o posicionamento das peças brancas.

O campeão se antecipa ao desafiante, desviando-o de linhas que, certamente, a equipe Danailov-Cheparinov & cia. teriam preparado para esse encontro. Por outro lado, as posições resultantes desses câmbios devem ter sido cuidadosamente avaliadas por Anand. Uma coisa é certa: ele não iria se aventurar em uma linha simplificadora, que lhe custa algumas debilidades na estrutura de seus peões da ala da dama, como será visto em frente, se isso não fosse compensado de alguma outra forma. Aqui, essa “outra forma” resulta ser o confronto de Topalov com uma situação imprevista para ele, bem como o equilíbrio dinâmico para compensar as debilidades já mencionadas.

Pura Administração do Risco das variáveis conhecidas!


( The idea for Black is simple. He wants to have a symmetrical pawn structure. White still has a small advantage due to space advantage.)

15. Be4 Rb8 16. Qc2 Nf6
(I know many players who play this line as Black. It is very difficult to win this type of position as White. White's temporary space and piece development advantage will evaporate soon. Here is a possible line: 17. dxc5 Nxe4 18. Qxe4 bxc5 19. Qc2 Bb7 20. Nd2 Rfd8 21. Nb3 c4 22. Rxc4 Ba6 23. Rc7 Rbc8 24. Rxe7 Rxc2 =. This is also equal: 17. dxc5 Nxe4 18. Qxe4 bxc5 19. b3 Bb7 20. Qf4 Rfd8 =)

Estou convicto de que esse lance, que dá causa ao aparecimento de um peão isolado na coluna c (portanto uma debilidade concreta), foi cuidadosamente preparado por Anand antes da partida. Conforme será visto, sua opção foi pelo câmbio desse cavalo pelo ativo bispo das brancas.  Assim, seu próprio bispo teria um escopo de ação mais efetivo. A contraparte é que o cavalo de Topalov pode tanto colaborar no ataque ao peão preto c, como bloquear seu avanço à casa c4. Esses planos todos, em uma partida de tanta importância, não podem ter suas ocorrências atribuídas ao acaso. É bem provável que isso tudo fez parte de acurada preparação prévia.

(The reason why Anand cannot simply play cxd4 is because of the following: 16... cxd4 17. Nxd4 Bb7 18. Rc7 +/-)

17. dxc5 Nxe4
Desaparece assim o ativo bispo branco. Atingido esse objetivo, Anand vai agir no sentido de ativar ao máximo seu bispo remanescente.

18. Qxe4 bxc5

Pretas ficam com um peão isolado na coluna c, sujeito ao ataque das peças pesadas brancas. Em compensação, tentam manter o equilíbrio dinâmico mediante ação nas colunas b e c, e na diagonal h1-a8. O curioso é que Topalov, mestre nesse tipo de jogo dinâmico, tenha permitido ao seu adversário atingir essa posição, em uma curiosa inversão de papéis. Por certo, ao administrar as incógnitas advindas da inesperada Variante Lasker, tenha confiado mais na exploração da estrutura fragmentada das pretas na ala da Dama. Começa aí, provavelmente, a pressão psicológica sobre o desafiante, ao ser confrontado inversamente com suas próprias preferências.

A abordagem da administração do risco na presente posição indica os seguintes fatos:
a)- Ante a abertura de PD de Topalov, diversamente das partidas anteriores, Anand decide entrar nas linhas do Gambito da Dama.
b)- Anand confronta Topalov com uma linha pouco utilizada, qual seja a Variante Lasker, alcançando posição simplificada e um tanto restringida.
c)- Para não dar a Topalov a oportunidade de assumir uma iniciativa concreta, Anand entra em uma linha onde troca seu cavalo pelo ativo bispo branco, à custa da fragmentação de sua estrutura de peões na ala da dama.
d)- A debilidade estrutural assim imposta às pretas, resta compensada dinamicamente pela sua atividade de peças pelas colunas b e d e pelas diagonais h1-a8 e f1-a6.
e)- Parece ocorrer assim uma inversão de preferência de jogo: Topalov que seria aquele a quem gostaria de jogar de forma dinâmica, agora se vê às voltas com a exploração das debilidades estruturais de Anand, enquanto este procura ativar suas peças ao máximo para impedir a progressão do ataque do desafiante.

(Now that Topalov is able to avoid the symmetrical pawn structure, his main target will be the c5 pawn.)

19. Qc2 Bb7
Como já mencionado, a opção de Anand pelo jogo dinâmico de suas peças em contraposição à debilidade estrutural de seus peões da ala da dama, aqui resta concretizada na ativação de suas torres pelas colunas b e d, e de seu bispo pelas diagonais h1-a8 e f1-a6, segundo as necessidades.

(White retreats his Queen behind the Rook to put more pressure on the c pawn. Now is not the time for Black to play passively. Anand indirectly defends the c5 pawn with Bb7. If 20. Rxc5 then Bxf3 21. gxf3 Rxb2 22. Qxb2 Qxc5 =+)

E aqui está o testemunho da Susan Polgar sobre a questão de Administração do Risco pela análise de posições criticas (variáveis conhecidas)  procedida por Anand:

(It is very clear that Anand and his team have prepared this very practical and safe line. It is a wise choice not to take any chances to send this match to the rapid playoff.)

20. Nd2
(Topalov is following the idea I previously mention back in move 15. He is doing the best he can to keep the remaining pieces on the board, stabilize the Kingside, then continue to put more pressure on the c5 pawn. This is his only chance, as slim as it may be, to win.)

20...Rfd8
(If this game ends with a draw, I think Anand will have a small edge in the rapid playoff.)

21. f3

Considero que, a partir desse lance, os dois jogadores passam a administrar seus riscos frente às incógnitas da partida. Assim, a fase de preparação prévia administrada até aqui por Anand dá-se por concluída, nesse ponto.

De um lado, Topalov tenta limitar ao máximo a pressão exercida pelo bispo preto na diagonal h1-a8, para então prosseguir em seu intento de assédio ao peão c.

De outro, Anand procura objetivos alternativos para ação de suas peças pesadas e de seu bispo, procurando assim compensar dinamicamente suas debilidades estruturais.

Aqui, a questão reside em quem saberá administrar seus riscos da melhor forma. Considerar ainda que, segundo as atitudes de Topalov, a ele, ao menos por ora, não interessava o meio ponto. Esse fato coloca Anand em certa vantagem psicológica, porque para ele o empate seria um resultado satisfatório.

(The idea is to block the effectiveness of Black's b7 Bishop. Then he can re-focus on the c5 pawn. Anand will try not give Topalov time to do that. 21...Qg5 is possible right now.)

21...Ba6
(This is OK too. Anand spent a considerable amount of time for this move. He understands that is he fails to keep White busy, he will have a problem holding on to the c pawn and that can mean the game. White should put his f1 Rook on c1.)

22. Rf2
(This is an odd choice for Topalov. The problem is Anand can mount his pieces on the d file to go after the Knight as White may face back rank problem. I like 22. Rc1 a lot better.)

22...Rd7
(Following the plan of doubling up the Rooks on the d file. In my opinion, the position is equal.)

23. g3?!

Sinal evidente de que Topalov está perdendo o controle da partida. Sua administração do risco aqui, começa a falhar ao aumentar o escopo de ação do bispo preto, porque agora o peão de f3 começa a ser alvo de ataque pela diagonal h1-a8. Isso, conjugado com o avanço do peão de f5, do rápido acesso da Dama preta à ala do Rei, e ao domínio das torres pelas colunas b e c, conferem vantagem às pretas, na minha opinião.

É importante destacar aqui, que lances como 21.f3, 22.Tf2 e 23.g3 envolvem falha na administração do risco por parte de Topalov, ante a iniciativa cada vez maior desenrolada pelas pretas. Anand vai paulatinamente aumentando o escopo de ação de suas peças, e agora tem diante de si concreta alternativa de ataque pelo centro, ante a debilitada posição dos peões brancos do centro e da ala do rei.

A vantagem das pretas, nesse ponto, pode não ser suficiente para a vitória, mas ao menos o campeão tem diante de si objetivos de ataque muito mais contundentes que aquele concedido ao seu adversário.

(Topalov is creating a bubble for his King. Once he can neutralize Anand's threats, he can then turn his focus back on the c5 pawn which is going nowhere. Both players understand the huge importance of this game. Therefore, they are very patient so far.)

23...Rbd8 24. Kg2 24...Bd3 25. Qc1
(Nothing has changed so far. White is still focusing on the c5 pawn. I personally find this game exciting. There is very little going on other than the c5 pawn. One will do everything possible to go after it which could mean a victory while the other one will do everything to either defend it or deflect it with counter threats elsewhere. The self imposed Sofia rule by Topalov gives the fans a chance to see more endgames rather than 20-25 move draw in equal positions.

Even though the position is equal, it is a little easier to play with Topalov's position. He knows exactly what he needs to do. There is a concrete target to aim for.)

O comentário de Susan Polgar sobre “a auto-imposição da Regra de Sofia” por Topalov coloca em relevo importante questão psicológica atuando sobre a partida. Na minha opinião, essa limitação de atuação resulta ser prejudicial ao desafiante, que assim tem de lidar com mais um elemento de imprevisão na partida. Se a posição é igual, como asseverado por Susan, então nada mais resta ao desafiante que manter a igualdade ou propor (ou aceitar) o empate. Em vez disso, Topalov parte para alternativas cada vez mais forçadas, buscando o desequilíbrio da partida. Estatisticamente, tratando-se de jogadores de nível como os dois, isso não costuma dar resultados positivos.

25...Ba6
(Here is an interesting line: 26. Ne4 Rd1 27. Qc2 f5 28. Nd2 Re1 29. Rxc5 Rxe3 30. Rc7 Rd7 =)

26. Ra3
(If 26. Rxc5 Rxd2 27. Rxd2 Rxd2+ 28. Qxd2 Qxc5 and Black wins.)


26...Bb7

Ao jogar 26.Ta3, Topalov recusa empatar por repetição de lances que poderia se seguir a 26.Dc2. Prefere agir no sentido de manter suas peças dirigidas às debilidades de Anand.

Por sua vez, aproveitando detalhe tático (o peão de a7 é tabú), o campeão posiciona seu bispo na importante diagonal h1-a8, dessa vez mirando agressivamente para a agora enfraquecida posição do Rei branco.

(White obviously cannot play 27. Rxa7 because of the discovery with Bxf3+. However, Topalov can play 27. Nb3 now. The battle for the c pawn continues.)

27. Nb3 Rc7
(Perhaps 28. Rc2 next. 28. e4 is also interesting because 29. Rxa7 is a real threat since there is no longer any discovery check.)

28. Na5
Além de tentar o câmbio pelo ativo bispo preto, o desafiante procura também ativar ao máximo suas peças. Tem uma torre ativa, à frente da cadeia de peões da ala da dama, e seu cavalo pode tanto ir para uma posição de bloqueio em c4 como atacar diretamente ao peão de c5 a partir de b3.

(Topalov wants to trade for Black's Bishop. Anand should not allow this trade as it would be more difficult for Black without the Bishop.)

28...Ba8
Ao recusar a troca de peças menores, Anand investe em sua iniciativa pelo centro e pela ala do rei para combater o ataque das brancas pela ala da dama.

(A curious move by Anand. Yes, he wants to keep his Bishop. Yes, he wants to keep his Bishop on the h1 - a8 diagonal. Even though it is not a blunder, this is still an unexpected move. Topalov can bring his Rook back to c3 now.)

29. Nc4 e5

Colocando mais pressão sobre a ala do Rei. Anand avalia aqui, provavelmente, que os objetivos que traçou antes da partida foram alcançados. Agora, procura administrar o risco frente às incógnitas da melhor forma que entende: mediante ataque à comprometida estrutura de peões brancos que guarnecem o monarca de Topalov. Avalia que a perda de qualquer dos peões (c5 ou a7) seria compensada por esse ataque.

(Anand cannot just sit back and allow Topalov to make a big play for his c5 pawn. He must continue to put pressure on the Kingside.)

30. e4
Procurando o controle efetivo das casas d5 e f5 mediante Cc4-e3.
Por outro lado, permite ao campeão a potencialização de ação do bispo de a8 mediante ruptura em f5.

 (Black must play f5 now or else White will play Ne3 with a good advantage.)

30...f5
(Topalov must be careful here. Anand wants to open up the Kingside, especially the h1 - a8 diagonal. Perhaps 31. Nd2 is needed.)

31. exf5?
Na minha opinião, colocando a partida nas mãos de Anand. Topalov aqui sucumbe ante a pressão exercida pelas incógnitas da partida, e passa a administrar seus riscos de modo cada vez mais deficiente.

Talvez o mais indicado aqui seria um reagrupamento à base de Cc4-d2 e Ta3-e3. Para se opor a esse plano, Anand poderia trocar peões e peças menores em e4, mantendo assim o equilíbrio.

Agora, a ação do bispo de a8 é potencializada ao máximo.

(This is very dangerous. Anand can play 31...e4 now with serious threats.)

31...e4 32. fxe4?
Outro erro, dessa vez mais grave. Permite a montagem de uma “máquina” mortal.

(This is looking very bad for White now. We may not go to the playoff after all. 32...Qxe4 and Black has a strong attack. This is almost over. 32...Qxe4+ 33. Kh3 Rd4 34. Ne3 Qe8 35. g4 h5 -+)

32...Qxe4 33. Kh3

Para não perder a Dama, Topalov tem de levar seu Rei a uma região onde ficará mais desprotegido ainda.

(It is all in Anand's hands now. He will win this match and retain his title if he continues correctly.)

33...Rd4
(So far so good.)

34. Ne3
Única. 34.Tf4 falha por 34…Dg2+ 35.Rg4 De2+ .

(I don't think Topalov saw 34....Qe8 here which gives Black a win. I think he missed it. If Anand wins this game, I will post my final comments about the match as well as bring you the information about the closing ceremony. Please be sure to check back to the final wrap up.)

34...Qe8
(This is the key move and Anand found it. If 35. g4 then h5 -+ It is just about over.)

35. g4 h5
(Anand is like a Tiger smelling blood. He feels it. He knows that the World Championship is in his hands now. This is a shocking ending! 31. exf5 and 32. fxe4 are 2 horrendously bad moves.)

36. Kh4
Para evitar sucumbir rapidamente, Topalov é obrigado a colocar seu Rei em posição cada vez mais exposta. Agora sobrevém a abertura total da ala de rei. Isso também tem seu lado positivo para Topalov, que assim poderá alimentar esperanças de contra ataque pela coluna f, mantendo a torre de a3 na defesa da terceira fila e no ataque ao peão de a7,  que lhe assegura certas chances em algumas variantes de defesa.

Porém, como sempre ocorre nesses casos, sua tarefa é hercúlea, e quase sem esperanças. Aqui, deve esperar sobreviver apenas mediante alguma falha de Anand na condução do ataque. Lembrar que isso já ocorreu diversas vezes no match, motivo pelo qual a administração do risco, por essa via, se constitui no procedimento indicado.

(The King cannot possibly survive this. 36...Qd8+ is the quickest way to close out this game.)


36...g5+

Também Anand, por seu turno, começa a sofrer pressão, aqui no sentido de obtenção da vitória de forma mais rápida. E isso já ocorreu em partidas anteriores. Como se vê, o manejo das incertezas da partida não escolhe jogador, seja ele aquele que tem ou que não tem a vantagem. Talvez 36...Dd8 teria sido melhor.

(This is not the most accurate continuation for Anand. 36...Qd8 would have been much more decisive.)

37. fxg6
(Black should still win this but it is more difficult than the previous suggestion. This is the winning path for Anand: 38. Qf1 Rxg4+ 39. Kh3 Re7 -+)

37...Qxg6 38. Qf1
A administração do risco de Topalov frente às incógnitas da posição passa pela possibilidade de um contra ataque pela coluna f, contra o agora também desguarnecido rei negro. Topalov procura, ele também confrontar Anand com suas próprias dificuldades em arrematar a partida. Com esse objetivo, permite o perigoso xeque em g4, ao mesmo tempo em que mira para uma invasão em f8. A questão aqui se resume a saber se Anand será capaz de contornar o contra ataque de Topalov, e assim obter o “match point”.

(This is perhaps one of the biggest blunders in the final game of a world championship match. I am still stunned that Topalov did not sense any danger whatsoever by opening up the h1 - a8 diagonal.)

38...Rxg4+
(This is the final hurdle for Anand and he found it.)

39. Kh3
(Now 30...Re7 and it is basically hopeless for White.)

39...Re7!

Eis aí! Com a mortal ameaça Te7 x e3+  -  Th4+ e Dg4 ++.

Anand administra seus riscos de modo exato. Permite o xeque em f8, mas apenas para Topalov entrar em um final totalmente perdido, seja de Dama contra Torre e Cavalo, ou de Reis e peões.

Lembrar que, nesse ponto, a partida assume um caráter eletrizante, onde o controle dos nervos é peça fundamental para o sucesso, seja na defesa ou no ataque. Em grande número de posições dessa natureza os jogadores perdem o controle, e ou deixam escapar a vantagem arduamente obtida, ou sucumbem rapidamente ante a pressão colocada pelo oponente. Esses são os elementos de imprevisão e incerteza que cercam partidas como essa, a ponto de levar um GM “top ten” como Topalov a cometer equívocos graves como 31.exf5? e 32.fxe4?, em uma partida decisiva pelo título mundial.

(Here are a few possible lines: 40. Qd1 Rd4 41. Nf5 Qxf5+ 42. Rxf5 Rxd1 43. Rxh5 Rg7 44. Rg3 Bd5 -+ or 40. Rf8+ Kh7 41. Rh8+ Kxh8 42. Qf8+ Qg8 43. Qh6+ Rh7 44. Qf6+ Rhg7 45. Qh6+ Qh7 46. Qxh7+ Kxh7 47. Nxg4 hxg4+ -+ Everything looks bad for Topalov.)

40. Rf8+
(The last hope for Topalov is for Anand to play 40... Kg7 41. Nf5+ Kh7 42. Rg3. However, after the game, I went through this line deeper and it was lost for Topalov anyway.)

40...Kg7
Sem temer o xeque de cavalo em f5, avaliando corretamente, mesmo ante a pressão existente, que o final será favorável às pretas.

(Although 40...Kh7 is a cleaner and more precise, 40...Kg7 also wins after I looked at it again 41. Nf5+ Kh7 42. Rg3 Rxg3+ 43. hxg3 Qg4+ 44. Kh2 Re2+ 45. Kg1 Rg2+ 46. Qxg2 Bxg2 47. Rf7+ -+)

41. Nf5+ Kh7 42. Rg3 Rxg3+ 43. hxg3 Qg4+ 44. Kh2 Re2+ 45. Kg1 Rg2+ 46. Qxg2 Bxg2 47. Kxg2

Entrando em um final de Dama contra Torre e Cavalo, totalmente sem esperanças. Também, em caso de 47.Tf7+, o final de Reis e peões resultante seria igualmente sem esperanças.

Esse arremate demonstra que Anand, ao contrário de Topalov administrou seus riscos de forma mais consistente, contornando todas as dificuldades antepostas pelo seu adversário.

(Another option is 47. Rf7+ but Anand can still win with this: 47... Kg6 is a must move 48. Rg7+ Kxf5 49. Rxg4 hxg4 50. Kxg2 Ke4 51. Kf2 Kd3 -+)

47...Qe2+ 48. Kh3 (This is now completely hopeless for Topalov. Rook and Knight cannot hold this position. Now a simple 48...c4 wins.)

48...c4
O comentário de Susan Polgar, a seguir, coaduna-se perfeitamente com os conceitos de administração do risco abordados nesse trabalho.


(The final game usually comes down to nerve as we can see today. In this game, Anand was more composed. Even though both sides made mistakes, Topalov was making more and bigger ones and this costs him the game. )


49.
a4 a5 50. Rf6
(Anand's advantage is overwhelming.)

50...Kg8
(Topalov's chances to hold are very slim. Anand has plenty of time and I think the dangerous tactics are now behind him. Now it is simply a matter of technique.)

51. Nh6+ Kg7 52. Rb6 Qe4 53. Kh2
(Now Anand can simply get his Queen behind the b2 pawn then push c3. For example: 53...Qc2+ 54. Kh3 Qb1 -+)

53...Kh7
(Topalov has no practical chances to hold this position. He is fighting on because it is the final game of the world championship.)

54. Rd6 Qe5 55 Nf7 Qxb2+ 56. Kh3 56 Qg7  0-1


IV – CONCLUSÃO

Os conceitos de administração do risco, mencionados nesse trabalho, podem ser aplicados com sucesso em qualquer partida. Como se pode perceber, envolvem técnicas de preparo prévio e recursos para permitir a solução dos problemas que, certamente, ocorrerão durante o desenrolar dos acontecimentos. Como sempre, obterá sucesso aquele jogador que, aliando seu talento à técnica, ao preparo e ao controle da pressão psicológica, melhor souber contornar todas essas dificuldades.

Na partida aqui apresentada, verifica-se que o desafiante, ao ser confrontado com uma defesa fora de suas previsões, não obteve sucesso na administração de seus riscos. Limitado por uma absurda atitude de auto-imposição de regra de empate, ainda mais quando cotejado com a possibilidade de ingressar nos play-offs, onde eventualmente seu oponente poderia levar certa vantagem pelo seu retrospecto técnico, forçou uma posição simplificada e cometeu erros graves na condução de seu plano de jogo. Aí, quando já estava em situação desesperadora, tentou embaralhar o adversário antepondo a ele dificuldades adicionais para obtenção do ponto, atitude que já havia lhe rendido dividendos polpudos em outras partidas. Dessa vez, o campeão soube, como já o fizera na segunda partida, administrar seus riscos de forma segura, o que lhe valeu a vitória no match.

Isso demonstra que, por mais categorizado que seja o jogador, - e aqui estamos falando de dois mestres jogando pelo título máximo – mesmo assim eles estão sujeitos à eficiente administração de seus riscos, ante a imprevisão e às incertezas que cercam uma partida. Quem soube melhor administrar seus riscos, antes e durante a partida, saiu-se vencedor da contenda.

Muito ainda pode ser dito sobre essa matéria. O que aqui foi exposto apenas raspa de leve a superfície de um oceano de variáveis e incógnitas que permeiam uma partida. Assim, o objetivo desse trabalho, consistindo em mostrar uma parte infinitesimal do grande complexo de administração do risco necessário para se jogar Xadrez, pode ser ampliado e aprofundado na medida das necessidades e possibilidades de cada jogador. Certamente, com isso alcançará resultados plenamente satisfatórios, porque estará imprimindo ao seu jogo um controle razoável da incerteza e da aleatoriedade.

Obs.: texto da Parte II da palestra apresentada no Clube de Xadrez de Curitiba pelo ex-campeão paranaense Ernesto Pereira,  elap@terra.com.br em 12/05/2010. www.cxc.org.br

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Maiorias Qualitativas nas Defesas Índias

 

Nesta obra o autor alia com maestria a sua bagagem de aficionado enxadrista e pesquisador do xadrez a competência de normatizador e indutor de novíssima abordagem sobre o tema “Maiorias Qualitativas”, presente desde as primeiras iniciativas de formulação teórica no xadrez. 304 págs.

Sugestões e críticas, diretamente com o autor Henrique Marinho,  hsam@terra.com.br

 
Pedidos para Editora Ibrasa: 
http://www.ibrasa.com.br/loja63/produtos_descricao.asp?lang=pt_BR&codigo_produto=242

quarta-feira, 7 de julho de 2010

fide320_160

A FIDE Arbiters' Seminar is going to be organized from 2 to 8 August 2010 in Goncalvez City, State Rio Grande do Sul, Brazil, by the Brazilian Chess Federation and under the auspices of FIDE.
The Lecturer will be IA Antonio Bento (BRA), Technical Vice President of the Brazilian Chess Federation.

For more detailed information:
GM Darcy Lima (Brazilian Chess Federation): gmdarcylima@globo.com
Dados originalmente publicados na página www.fide.com

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Festival Panamericano da Juventude 2010

Regional Sul Brasileiro de Xadrez Escolar 2010

Regional Sul Brasileiro de Xadrez Escolar 2010






Campeões por ano

Educação Infantil
Matheus Machado Pereira - Colégio Mafrense - SC

1º ano Masculino
Gabriel De Borba - Colégio Bom Jesus Santo Antonio – SC

1º ano Feminino
Gabriela Gagliardi Butolo - Colégio Bom Jesus Santo Antonio-SC

2º ano Masculino
Igor Francisco Bauer - Colégio Mafrense – SC

2º ano Feminino
Gabriela Kalil - Colégio Mafrense - SC

3º ano Masculino
Yan Henrique Cordeiro - Aristiliano Ramos - SC

3º ano Feminino
Kamille Artifon - E. Ed. Básica Deodoro - SC

4º ano Feminino
Gabriela Bortoli Vieira - Bom Jesus Diocesano - SC

4º ano Masculino
Andre Prolik Mello - Escola Anjo da Guarda - PR

5º ano Masculino
Thiago Carstens Dobuchak - Colégio Bom Jesus Santo Antonio-SC

5º ano Feminino
Heloisa Roberti Cristofolini - Colégio Bom Jesus Santo Antonio-SC

6º ano Masculino
Ivo Mattos Leão Hauer - Colégio Positivo - PR

6º ano Feminino
Mariana Mello Mazepa - E.E. General Antonio Sampaio - PR

7º ano Feminino
Júlia Brunetto Rodio - E.Ed. Básica Deodoro - SC

7º ano Masculino
Ruan Lucas Alves Gonçalves - CEFRAI – Centro Educacional - SC

8º ano Masculino
Victor Soltau - Colégio Bom Jesus Santo Antonio-SC

8º ano Feminino
Carine Kátia Campestrini - E.E.B. São Bento - SC

9º ano Masculino
Guilherme Oliveira Agustini - Bom Jesus Diocesano - SC

9º ano Feminino
Isadora Braun - Colégio Bom Jesus Santo Antonio-SC

ENSINO MEDIO Masculino 1º ano
Bruno Orlando Starke - Colégio Bom Jesus IELEUSC - SC

ENSINO MEDIO Feminino 1º ano
Angélica Roberta Passold - Colégio Bom Jesus Santo Antonio-SC

ENSINO MEDIO Masculino 2º ano
Willian Quevedo Naissiger - E.E. Conêgo João B. Sorg - RS

ENSINO MEDIO Feminino 2º ano
Fernanda Fornari – CNEC - SC

ENSINO MEDIO Masculino 3º ano
Denison Da Silva - SENAI -SC


ENSINO MEDIO Feminino 3º ano
Andressa Kretszchmar - Colégio Bom Jesus Santo Antonio - SC



 Estará  presente  no evento o Sr. Tadeu da XADE DO BRASIL  promovendo a venda de material enxadrístico em geral.

segunda-feira, 7 de junho de 2010


Projeto "Pequenos Mestres"

Aulas subsidiadas para crianças da rede pública
Horário: às quintas-feiras, das 9:30hs às 11:15 no CXC 

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Seminário de Swiss Manager pela Internet - Atualização



En el arbitraje al igual que cualquier otra área del deporte es muy importante estar a la vanguardia y tener personal capacitado y en el caso de México nos hemos estancado a manejar el Swiss Master, por desconocimiento que hay un programa muchas veces mejor y con mayores beneficios conocido como "Swiss Manager", el cual es el programa oficial a nivel internacional de los eventos más importantes como es el caso de la Olimpiada Mundial de Ajedrez, ya que por sus bondades es el único que hace torneos por equipos y considera a los jugadores individualmente. en México los torneos por equipos se hacen aun los pareos a mano y en el mejor de los casos contando al equipo como unidad. si eres organizador de eventos no tendrás mejor herramienta para tus eventos, si eres árbitro sencillamente dejarás de estar un paso atrás de los árbitros de muchos países.

Es increíble que países como El Salvador, Honduras, Nicaragua ya hayan oficializado el Swiss Manager como oficial y aquí aun no.
Por esta razón "Todo México es Ajedrez" estará implementando Seminarios y Diplomados On-line vía Internet de diversas especialidades como Arbitraje, Programas de Computo y Administración de Eventos, así como Mercadotecnia.

En esta ocasión invitamos a los interesados en asistir al Seminario "Swiss Manager por Internet en Tiempo Real". el cual será impartido con una duración de 20 horas

HORARIOS (TIEMPO DE LA CD DE MÉXICO):
Sábado 26 de Junio 10:00 - 15:00 hrs
Domingo 27 de Junio 10:00 - 15:00 hrs
Sábado 3 de Julio 10:00 - 15:00 hrs
Domingo 4 de Julio 10:00 - 15:00 hrs

PONENTE:
El Seminario será impartido por el Arbitro Internacional Santiago García Ramos, Conductor Master FIDE en Arbitraje, a nivel mundial existen sólo 30 Conductores Master FIDE (Árbitros Internacionales autorizados por la FIDE para impartir seminarios), México cuenta con 2, el AI Enrique Zaragoza y AI Santiago García.

El ponente del seminario ha impartido este mismo seminario ante Árbitros Internacionales, Árbitros FIDE y Árbitros Nacionales de Argentina, Perú, Uruguay, Chile, Paraguay, Ecuador, El Salvador, Costa Rica, Panamá, Guatemala, Honduras y Nicaragua en diversos seminarios en Buenos Aires, Argentina; Lima y Cusco Perú; El Salvador, San Salvador; Panamá, Panamá; Tegucigalpa, Honduras; Managua, Nicaragua y San José, Costa Rica.

TEMARIO:
1. Instalación y configuración básica del programa
2. Administración Torneos Sistema Suizo, Round Robín y por Equipos.
3. Configuración básica y avanzada de los torneos Sistema Suizo, Round Robín y Equipos.
4. Captura e importación de jugadores
5. Emparejamiento, exclusiones, reactivación, emparejamiento manual, emparejamiento automático, prohibiciones.
6. Diferentes tipos de información que emite el programa
7. Generación archivos PGN
8. Importación y exportación de información
9. Actualización Internet
10. Actualización y configuración de eventos en Chess Results.
11. Reportes de torneos formato Krause FIDE
12. Generación de Reportes de Títulos
13. Generación de Reportes del Evento
14. Importación y adecuación de Listas de Elo Nacional y FIDE al programa

COSTO:
México $ 500.00 Pesos (Pago mediante deposito bancario)
Extranjeros $50.00 USA (Pago mediante Wester Union)
Personas interesadas en participar al seminario enviar un email a academiadeajedrez@todomexicoesajedrez.com

sábado, 29 de maio de 2010

ADMINISTRAÇÃO DO RISCO EM POSIÇÕES CRÍTICAS

PARTE I


I - INTRODUÇÃO

Prever o futuro sempre foi uma das maiores aspirações do ser humano.

Desde os tempos antigos, oráculos, sacerdotes, xamãs e feiticeiros, todos eles procuraram desenvolver rituais e procedimentos para sondar o porvir, e assim adquirirem poder e glória perante o povo e os soberanos. Naqueles tempos, acreditava-se que o Destino imperava como o Senhor maior de todos os humanos, que desde o berço em que nasciam já tinham traçado diante de si todos os fatos que viveriam, até a morte e mesmo além dela. Assim, ter intimidade com o Destino significava deter o conhecimento do futuro.

Mesmo as civilizações mais adiantadas daquele tempo, como os gregos por exemplo, renderam-se a esse estado fatalista, e mesmo os avanços na Geometria Euclidiana e na Filosofia de Platão foram insuficientes para mudar esse estado de coisas.

Mais tarde, já a partir da Idade Média, matemáticos e aventureiros, movidos pela necessidade de ganharem em jogos como cartas e dados, desenvolveram técnicas e conhecimentos dirigidos ao controle de apostas. Para tanto, utilizaram como ferramenta o Sistema Arábico de Numeração, recém introduzido na Europa por Leonardo de Pisa, mais conhecido como Fibonacci. É de sua lavra, ou pelo menos foi aquele que deu a conhecer ao mundo europeu, a famosa Série de Fibonacci, cujo termo qualquer sempre será a soma dos dois precedentes: 1,1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, etc. Essa série tem hoje larga aplicação nas Artes, Arquitetura, Economia, Astronomia, Produção de Alimentos, etc.

Assim, o vínculo entre a Vida e o Destino foi rompido, e passou-se a acreditar que, se os eventos de nosso cotidiano ainda permaneciam aleatórios e fora de nosso controle, pelo menos, em alguma medida, eles poderiam ser administrados.

Posteriormente, esses conhecimentos iniciais evoluíram para um ferramental ainda mais sofisticado, com a introdução de técnicas probabilísticas, desenvolvidas por Cardano, Pierre de Fermat, Blaise Pascal, Jakob Bernouilli, Abrahm de Moivre, Thomas Bayes e muitos outros.

Inicialmente dirigida quase que exclusivamente aos jogos de azar, mais tarde, convertida em doutrina, a Teoria das Probabilidades teve sua aplicação dirigida as mais diversas áreas, como Seguros, Engenharia, Medicina, Economia, Astronáutica etc.

Assim, toda a incerteza que paira sobre qualquer evento, seja ele de ordem física, psíquica, comportamental, etc., pode ser ordenada de forma a maximizar os efeitos desejáveis e minimizar os indesejáveis.

A aleatoriedade presente nesses eventos pode ser objeto de estudo e manejo, para quantificação de expectativas de ocorrência, ou de não ocorrência. É assim com os experimentos biológicos, é assim também com pesquisas eleitorais, por exemplo.

Mas, o que tem isso tudo a ver com o Xadrez?

Tem tudo a ver. Observe-se o que diz o físico Leonard Milodinow, em seu best seller “O Andar do Bêbado”:

"...o xadrez não traz nenhum elemento aleatório explícito. Ainda assim, a incerteza existe, pois nenhum dos dois jogadores sabe ao certo o que o adversário fará a seguir. Se forem grandes jogadores, conseguirão, na maior parte das situações, enxergar algumas jogadas à frente; se avançarem muito mais, a incerteza crescerá, e ninguém saberá com segurança qual será o desenrolar exato do jogo. Por outro lado, em retrospecto, geralmente é fácil explicar por que cada jogador fez a jogada que fez. Trata-se novamente de um processo probabilístico cujo futuro é difícil de prever, mas cujo passado é fácil de entender."

Todos os que se dedicam ao Xadrez têm bem presente essa incerteza. É bem por isso que, a par do talento inato, o jogador tem que estudar abertura, meio jogo e final. Precisa familiarizar-se com os conceitos de tática e de estratégia. Necessita conhecer posições típicas, estruturas de peões e técnicas de condução de finais. Todo esse conhecimento é fundamental para a compreensão do jogo e a boa performance em competições.

Para tanto, os elementos de aleatoriedade e incerteza, como já configurados, precisam ser identificados e, o quanto possível, administrados, para que a grande dificuldade consistente no planejamento de uma partida tenha um controle razoável.

A isso, pode-se denominar Administração do Risco.


II – ADMINISTRAÇÃO DO RISCO EM POSIÇÕES CRITICAS

1. Variáveis

O tratamento de aleatoriedades e incertezas, como já explicado, consiste em administrar o risco da atividade. No Xadrez, isso também se aplica.

Entretanto, deve-se destacar que o campo é vasto e de altíssima complexidade. Compreende temas como linhas de aberturas e defesas, pensamento estratégico, cálculo concreto de variantes, controle do tempo, e muitos outros.

Nesse trabalho, a administração do risco será aplicada exclusivamente no tocante à posições críticas.

Conceitua-se posição crítica, para esse propósito, como aquela em que o jogador aspira tirar o melhor proveito possível, no caso de sua ocorrência no desenrolar da partida.

É aqui que entra em cena a análise de variáveis que concorrem para o aparecimento das posições típicas planejadas. Essas variáveis são de dois tipos:

a)- Variáveis definidas ou conhecidas
b)- Incógnitas.


2. Variáveis definidas ou conhecidas

São elementos conhecidos pelo jogador, antes da partida ser jogada.

Personalidade, sua e do oponente, estilo de jogo, posição no torneio ou no match, preferências de aberturas, performance-objetivo no torneio, estado físico e psicológico, etc., são todos fatores que podem e devem ser conhecidos, para um adequado planejamento de jogo.

Mesmo em torneios rápidos, muito freqüentes nos dias atuais, o conhecimento desses fatores, na medida do possível, será útil para obtenção do resultado esperado.

Conhecidos o maior numero possível desses elementos, pode-se então chegar, dentro da linha escolhida, a uma outra variável conhecida, ou seja, à posição critica de estudo.  

A posição critica de estudo pode ser de qualquer natureza: levando-se em conta os elementos retro mencionados, após escolhida a abertura ou defesa a ser adotada, pode assumir característica dinâmica, desequilibrada, ou marcadamente posicional. O importante, aqui, será a sua conceituação e preparação para entrar na linha mais adequada ao momento.

3. Incógnitas

Incógnitas representam toda a incerteza que cerca uma partida durante o seu transcorrer. O jogador deverá estar técnica, física e emocionalmente preparado para enfrentar fatores imprevistos, ou seja, fatores que não puderam ser objeto de consideração durante a fase prévia de preparação. Por exemplo, pode suceder que a linha de abertura/defesa estudada não ocorreu, o adversário tem uma postura esportiva diferente da normal, ocorreu uma novidade teórica, e, o pior de todos os fatores imprevistos, ocorrência de um lance inferior, comprometedor do resultado almejado. Todos esses eventos fazem parte de extenso rol de incógnitas.

4. Preferências dos mestres

De um modo geral, mestres preferem trilhar caminhos já percorridos ou estudados, dando assim preferência às variáveis conhecidas. Isso aumenta a autoconfiança e melhora a performance esportiva. O trabalho e a preparação domésticos sobre essas variáveis é intenso e generalizado. Fundamentalmente, essa é a Administração do Risco que se aplica às variáveis definidas ou conhecidas.

Por outro lado, também de um modo geral, mestres evitam ao máximo trilhar caminhos desconhecidos, porque sabem que as incógnitas são de difícil manejo durante a partida viva, ainda mais sob pressão do tempo.

É por esse motivo que, muitas vezes, assistimos ao um contínuo repetir de linhas já anteriormente jogadas por dois adversários, seja em torneios, seja em matches como o que transcorre atualmente.

E mais, a partir de uma determinada posição crítica, que pode ser preparada de antemão ou provocada durante a partida viva, a Administração do Risco implica ainda na execução de variantes que coloquem o adversário em confronto com suas próprias dificuldades.

Geralmente, é nessa modalidade que são criadas as grandes obras-primas do Xadrez, com partidas que primam pela sua beleza, seja de ordem tático-combinatória, seja de ordem estratégico-posicional.

Cálculo concreto de variantes em posições com muitos lances-candidatos, complicações para exploração de pouco tempo disponível, variantes que se anteponham ao estilo de jogo do oponente, lances de espera passando a obrigação de jogar o lance correto para o lado adversário, alta complexidade em posições aparentemente simples, todos esses elementos constituem recursos que, quando conhecidos de um lado e imprevistos para o outro, permitem o manejo da incerteza e da aleatoriedade em proveito próprio e em prejuízo dos interesses da outra parte.

E, quando fatores imprevistos assim ocorrem, com presença de algumas das incógnitas referidas, ou de outras aqui não mencionadas, a Administração do Risco do jogador perante essas dificuldades vai depender em grande parte de sua estabilidade emocional, de sua conceituação adequada em termos do plano a ser adotado/revisto e, no caso de emergir das complicações com posição inferior, de sua capacidade de resistência, colocando todas as dificuldades possíveis à obtenção da vitória do oponente. Essa foi, por muitos anos, a técnica adotada por Anatoly Karpov.


III – PARTIDA - EXEMPLO

A Segunda partida do Match pelo Título Mundial – FIDE 2010

Essa partida é de grande interesse, sob variados ângulos. No que diz respeito ao tema aqui tratado, constitui modelo interessantíssimo para se aferir a aplicação de Administração do Risco.

Primeiramente, há que observar as circunstâncias anteriores à realização do match, e da partida em si.

1. Circunstâncias do match:

Anand é o atual detentor do título. Seu estilo é considerado como universal, reunindo características tático-estratégicas que colocam-no, há muitos anos, como um dos GMs mais fortes da atualidade.

Topalov, o desafiante, possui estilo vigoroso e brilhante. Tem em seu currículo resultados estupendos, com belíssimas partidas de ataque. Antes do match, declarou que iria seguir a Regra de Sophia, segundo a qual não iria oferecer empate ao adversário, ficando a eventualidade desse resultado restrita às três situações previstas: repetição de lance, material insuficiente para o mate ou rei afogado.

O evento ocorre em Sophia, capital da Bulgária, terra do Topalov. Ali, cercado pelos seus admiradores conterrâneos e tendo como suporte técnico a equipe capitaneada pelos mestres Danailov e Cheparinov, o desafiante fará tudo o que for possível para tentar desestabilizar Anand, conhecido por seu caráter afável e forteza emocional.

2. Circunstâncias da partida:

A partida foi jogada em pesado clima de expectativa, principalmente em função do resultado da primeira, onde Anand sucumbiu tragicamente ante um ataque devastador de Topalov, cometendo erro grave e entrando em inapelável rede de mate. Diante de resultado colhido em cenário tão dramático, para cortar o aumento da autoconfiança de Topalov, Anand precisava colher pelo menos um empate na segunda partida, e assim rolar o match para a terceira partida, procurando neutralizar a pressão imposta pelo desafiante.

Para tanto, optou por jogar uma Catalã, supostamente preparada para o match.

Anand – Topalov,
Match Wch – Sophia/BUL – 25/04/2010 (2)
ECO E04 – Catalã

1. d4 Cf6 2. c4 e6 3. Cf3 d5 4. g3 dxc4 5. Bg2 a6 6. Ce5 c5 7. Ca3 cxd4 8.
Caxc4 Bc5 9.
O-O O-O 10. Bd2 Cd5 11. Tc1 Cd7 12. Cd3 Ba7 13. Ba5 De7 14. Db3 Tb8

Até aqui, tudo transcorreu como na partida Gulko – Shulman, Campeonato Americano de 2008, e supostamente conhecida de Anand.

Portanto, se ele optou por jogar essa linha, é porque devia ter algo preparado para essa posição.

Topalov tem um peão a mais, central e avançado. Entretanto, o preço pago por essa vantagem material é uma posição restringida e subdesenvolvida, porém sólida.

Anand investiu na entrega de um peão, que em certa medida constringe sua posição central. Entretanto, suas peças ocupam posições ativas, onde o destaque é o Bispo Catalão de g2. Essa peça, conjugada com suas colegas, oprime toda a ala da Dama das pretas. Assim, Topalov precisa realizar lances precisos, para não criar debilidades e permitir a invasão de sua posição.

15. Da3!!

Essa é a resposta, marcadamente psicológica, que Anand dá em relação à forma como foi vencido na primeira partida. Sem titubeios, sem lances burocráticos, porque se assim fora, do outro lado está um adversário formidável, pronto para explorar qualquer fraqueza emocional de seu oponente.

A avaliação de Anand parece ser a seguinte:

a) a Dama de e7 é uma das poucas peças ativas de Topalov, e fundamental para a defesa de sua posição restringida. Desaparecida essa peça, as casas pretas centrais, principalmente d6, ficam sem controle, com conseqüente incremento do domínio exercido pelas brancas.

b) O alívio da posição das pretas passa necessariamente por câmbios de peças, e aqui o plano de Topalov pode ser viabilizado mediante o salto de seu cavalo a c5. Com isso, poderia ser eliminado o cavalo bloqueador de d3, e até mesmo a troca de seu bispo de a7 pelo ativo bispo de a5. Portanto, plano com essa consistência precisa ser neutralizado.

15...Dxa3 16. bxa3!


Essa era a resposta que Anand tinha a dar nessa posição. É um lance que não coloca necessariamente Topalov em inferioridade, mas pelo inusitado da situação – brancas deliberadamente “enfraquecem” seus peões da ala da Dama, e isso ainda com um peão a menos – passa a responsabilidade de equilíbrio da posição para o lado das pretas.

Aqui, a atitude levada a termo por Anand consiste em negar a Topalov os procedimentos usuais de liberação e defesa: câmbio de peças, desenvolvimento da ala da dama, luta pela diagonal h1-a8 e pela coluna c, entre eles, para finalmente explorar sua vantagem material, seja exercendo-a, seja devolvendo-a mediante transformação em outra vantagem..

Deliberadamente, Anand abre novas linhas sobre a posição adversária, mesmo a custa de comprometimento de sua estrutura de peões. O resultado? Incerteza! Só que essa incerteza é conhecida de antemão pelas brancas, o que não ocorre pelo lado do desafiante. Portanto, constitui uma das formas de Administração do Risco pelas brancas.

16....C7f6

Não permitindo que seus peões centrais fiquem dobrados ante um eventual Bg2xd5, mas muitos comentaristas são de opinião que talvez fosse melhor 16...Cc5, pretendendo câmbio de peças e alívio da posição restringida. Nesse caso, a melhor resposta das brancas talvez fosse 17.Cd6, mantendo a pressão na diagonal h1-a8 e nas colunas b e c.

Portanto, esse já é um primeiro indício de que o desafiante não está se colocando à altura do que exige a posição. Prefere manter uma atitude de espera, procurando apenas não debilitar sua posição.

 17.Cce5

Em consonância com o plano traçado, Anand prossegue em sua ação de impedir o desenvolvimento das peças adversárias, melhorando ainda o posicionamento das suas. O plano geral imediato consiste em completar a ocupação das colunas b e c (ou o total domínio da coluna c), segundo as exigências da posição, prosseguindo também no incremento da restrição da posição contrária. Tudo, conforme exigido pela Administração do Risco por ele adotada.

17…Te8 18 Tc2 b6

Uma decisão difícil. Para disputar o domínio da diagonal h1-a8, Topalov debilita sua estrutura de peões e cede o controle da casa c6. Talvez esse evento já fosse esperado por Anand, que por certo deve conhecer suficientemente a personalidade agressiva de Topalov.

19.Bd2 Bb7 20.Tfc1

Anand prossegue em sua atitude de pressionar a posição adversária, não permitindo a ansiada disputa pelo controle da coluna c pelas torres pretas. Em caso de 20...Tc8, segue 21.Txc8 Txc8 22.Txc8+ Bxc8 Cc6, e o controle da casa c6 renderia ao campeão um ponto inteiro, porque o bispo de a7 não tem defesa.

20...Tbd8 21.f4!

Concretamente, Anand avalia que a cessão do domínio da casa e3 é compensada pela restrição imposta ao eventual avanço e6-e5, deixando assim o peão de d4 praticamente isolado.

21.Bb8 22. a4!

Nova restrição de avanço dos peões pretos, dessa vez na ala da Dama. O campeão pretende, assim, deixar Topalov em estado de imobilidade total, apenas a esperar o desenrolar dos acontecimentos.

Acresce ainda que o avanço do peão “débil” de a3 pode assumir importante função debilitante da falange “sólida” a6-b6. O plano aqui consiste em realizar, no momento adequado, o avanço a4-a5. Se pretas trocam em a5, o Bispo de d2 ocupa esta casa, com efeitos deletérios na posição contrária. Se, por outro lado, Topalov realiza o avanço b6-b5, cede outra casa – dessa vez c5 - importante para a invasão branca, também com efeitos desastrosos para o lado das pretas.

Confrontado com todas essas dificuldades, Topalov prefere o avanço a6-a5, tornando sua estrutura de peões na ala da Dama um objetivo fixo para as ativas torres brancas.

22...a5 23. Cc6 Bxc6 24. Txc6

No momento adequado, Anand exerce seu domínio sobre a casa c6 e, ante o forçado câmbio Bb7xc6, prossegue na obtenção da vantagem, agora posicionando suas torres em postos de ataque direto aos peões da ala da Dama e ao isolado peão central.

 24...h5

Esse lance foi muito criticado pelos analistas, os quais consideraram-no uma debilidade desnecessária. Entretanto, corresponde a um plano de defesa traçado pelo desafiante que, como será descrito a seguir, consiste em um de seus únicos recursos para tentar salvar a partida.

25. T1c4

Atacando o peão central com a segunda torre. Aqui a defesa desse peão exige o passivo Bb8-a7, aumentando o comprometimento das peças pretas. Com manobras como Rg1-h1, e Cd3-c1-b3, a queda dos peões pretos seria uma questão de tempo.

25...Ce3

Também um lance criticado pelos analistas. Entretanto, é consistente e coerente com o plano de defesa traçado pelo desafiante, e bem dentro de seu estilo agressivo.

Conjugado com o lance anterior das pretas, esse lance encerra a aspiração maior de Topalov, qual seja o de devolver, e até sacrificar material para neutralizar a vantagem das brancas. É de se destacar que as torres pretas, posicionadas em colunas centrais, sem possibilidade de enfrentar o domínio absoluto da coluna c exercido pelas brancas, estão sedentas de atividade. A torre de d8 já atua convincentemente pela coluna d, pelo preço pago a custa de aumento da vulnerabilidade do peão de e3. E a torre de e8 tem aspirações de incremento de sua ação pela coluna e, mediante ruptura em e5 e a custa do câmbio de seu valioso bispo de b8. Todos esses fatores, conjugados, viabilizam um plano de defesa que ficará mais claro a partir do lance 26 das pretas.

26. Bxe3 dxe3


Nesse momento, é possível detectar a versão de Topalov de Administração do Risco frente às incógnitas, ou fatores imprevistos, que teve de enfrentar no decorrer da partida.

E, fiel a seu estilo, seu plano envolve devolução e sacrifício de material para reunir condições de tentar neutralizar a expressiva vantagem das brancas.

Os peões de e3 e b6 seguem sendo alvo de ataque. Aquele, momentaneamente está livre de ataque imediato e este, sujeito a cair no ato. Ainda, conquistado o peão de b6, como corolário sucede também a queda de a5. E aí, os peões brancos “fracos” da coluna a têm caminho livre para a casa de promoção, devidamente apoiados pelas torres e principalmente pelo Bispo Catalão de g2. Melhor resultado da Administração do Risco realizada pelas brancas a partir do lance 15.Da3!! não se poderia esperar. E isso, premeditado desde antes da partida! Não em termos dos lances exatos como se sucederam , e sim no plano das idéias gerais e dos riscos envolvidos para tanto. É assim, portanto, que os mestres administram esses elementos.

Agora, reconhecendo sua inferioridade, Topalov corre atrás do prejuízo e, ele mesmo, entabola um plano consistente para, ao menos, dificultar a conquista do ponto inteiro pelas brancas. Seu plano consiste no seguinte:

a)- Tomando o peão de b6, a torre fica sujeita a ataque imediato pelo bispo de b8. Além disso, o peão de e3 possui latente aspiração de promoção em e1. Para tanto, será necessário desalojar o peão bloqueador de e2 mediante sacrifício de qualidade em d3. Tendo assim marcha livre para e1, colabora para esse evento a localização do Rei branco em g1, o qual poderá ser objeto de xeque descoberto pela diagonal a7-g1.

Portanto, em caso de 27.Txb6, segue 27...Txd3 28.exd3 Ba7 29.Tb1 e2+ 30.d4 (única, se30.Rh1  Bf2 31.T4c1 Td8 32.Te1 Bxe1 33.Txe1 Txd3 34.Rg1 Cg4 e não há como evitar Td3-d1) 30...e5! 31.fxe5 Txe5 (fica agora evidente a utilidade do “fraco” 24...h5, evitando o xeque no Corredor da Morte, o que obrigaria a cobertura com o Cavalo, retirando-o do cenário de batalha) 32.Te1  (se 32.Rf2 e1=D+ 33.Txe1 Cg4+ com no mínimo empate) com posição vantajosa para as brancas, porém não decisiva.

Ainda, após 28.Txb6, Topalov tinha a opção de jogar mais conservadoramente, e talvez de modo mais coerente com seu plano de Administração do Risco.

Mediante 28...e5 29.fxe5 (não serve 29.Cxe5 Td1+ 30.Bf1 Bxe5 31.fxe5 Txe5 com ameaças de Te5-f4, Cf6-g4 e Cf6-e4. As duas ultimas, viabilizadas pelo “fraco” 24...h5, evitando o xeque mortal das torres brancas no Corredor da Morte) 29...Cd7! e a troca desse cavalo pelo de d3 proporciona reais possibilidades de equilíbrio.

27. Bf3!

Anand encontra a continuação mais adequada para garantir sua vantagem posicional.
Atua de forma profilática, evitando o salto do Cavalo preto a g4, reforçando a posição de seu dispositivo central e2-Cd3, e abrindo passo para o Rg1-g2. Ainda, ataca o peão de h5, atando o cavalo na sua defesa. Mais não se poderia esperar de um só lance.

Quanto aos peões pretos de e3, b6 e a5, eles ainda permanecem lá, sujeitos a serem capturados no momento propício.

Com isso, resta controlado o plano de Topalov, prevalecendo aquele que, no caso, revelou-se o mais eficaz.

 27...g6 28. Txb6

Cai a base do dispositivo b6-a5.

28...Ba7

Agora não serve 28...Txd3 29.exd3 Ba7 30.Tb1 e2+ 31.d4 e5 32.fxe5 Txe5 33.Te1 e o peão de e2 cai.

Também não serve mais 28...e5 29.Cxe5 Td1+ 30.Rg2 Bxe5 31.fxe5 Txe5 32.Tb5 e, em razão das posições adequadas de Rei e Bispo brancos, todas as alternativas de contrajogo das pretas restaram inviabilizadas.

Topalov resolve então, a custa da entrega dos peões b6 e a5, ativar ao máximo suas peças, procurando invadir a posição das brancas e assim buscar alguma compensação posicional.

29. Tb3 Td4 30. Tc7 Bb8 31. Tc5 Bd6 32. Txa5 Tc8

Pretas conseguem assim alguma compensação pelo material devolvido e sacrificado. Agora, suas peças ocupam posições ativas e pretendem dificultar ao máximo a marcha das brancas para a vitória.

33. Rg2 Tc2 34. a3 Ta2?

Demonstrando o firme propósito de atacar com vigor os “fracos” peões de a3 e a4, Topalov perde o controle das sutilezas da posição, e comete o erro decisivo. Para seguir lutando, aqui era imperioso dobrar torres na coluna c, aquela mesma que foi ferreamente dominada pelas brancas. Então, mediante proposta de troca em c3, o desafiante poderia seguir aspirando um melhor resultado na partida.

35. Cb4!

De imediato, percebendo a posição descoordenada  e débil das torres pretas, Anand procede a um “corte” da atividade das três peças principais do desafiante, arrematando imediatamente a contenda.

 35...Bxb4

O lance 35.Cb4 impede a fuga da torre de a2 para a1 (35...Ta1 Cc2).

 36. axb4

Em razão da deficiente Administração do Risco pelo desafiante, os peões “fracos” da coluna a agora se convertem em temível falange, devidamente apoiados pelas suas peças. Além disso, o peão de e3, que outrora constituiu a vantagem material das pretas, agora também corre o risco de ser capturado a qualquer momento.

36...Cd5

Esse tentativa de sustentação de alguma resistência, interceptando a ação do Bispo Catalão e atacando a falange recém formada, esbarra em vigorosa solução de tranformação de vantagem por parte do campeão.

37. b5!

Devolvendo o peão de vantagem, mas compensando a perda material com a criação de um temível peão-bala, que irá escravizar a torre preta remanescente na casa b8, para evitar fatal promoção.

 37...Taxa4 38. Txa4 Txa4 39. Bxd5 exd5 40. b6 Ta8 41. b7 Tb8

Agora, com a sujeição total das peças pretas na defesa para evitar a coroação do peão b, o Rei branco inicia ação de rapinagem dos desamparados peões centrais de Topalov.

42. Rf3 d4 43. Re4  1-0

Esta partida constitui preciosa lição de como um jogador deve se comportar ante uma situação desfavorável em um certame. Estabelecendo um plano adequado de Administração do Risco, Anand colocou seu adversário em uma situação de desconforto ante a novidade teórica que apresentou na posição crítica por ele selecionada. Nessa condição de desconforto, lidando então com as incógnitas de uma situação imprevista, Topalov não acertou o rumo, embora tivesse criado condições para tanto. Também administrou o risco, a seu modo, mas não conseguiu traduzir sua atitude em resultado que fosse benéfico.

Portanto, venceu quem melhor soube administrar seus riscos.
  
Obs.: texto da Parte I da palestra apresentada no Clube de Xadrez de Curitiba pelo ex-campeão paranaense Ernesto Pereira,  elap@terra.com.br em 05/05/2010. www.cxc.org.br