Aulas de Xadrez

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Vantagem na Abertura II

3. RUY LOPEZ – DEFESA BERLINESA

Graças aos estudos de Kramnik, em sua preparação para enfrentar Kasparov pelo Campeonato Mundial, a Defesa Berlinesa, que havia quase desaparecido da prática magistral, voltou a fazer parte do repertório de muitos jogadores de alto nível.

Entretanto, deve-se prepara-la muito bem antes de seu uso, porque as Brancas jogando de forma natural, conseguem posições no mínimo com leve superioridade.

Além disso, existem algumas linhas que, ao menor descuido das Pretas, levam rapidamente ao desastre. Esse fato se encaixa perfeitamente no caso de nosso adversário ser de nível mais fraco, porque aí provavelmente não estará à altura das complicações que irão ocorrer durante a partida. Portanto, como nesse exemplo, nesse caso deve-se escolher linhas de jogo com grandes complicações táticas e estratégicas, colocando em xeque o conhecimento e preparo do adversário.

1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 Cf6 4.0–0 Cxe4 5.Te1




Neste ponto, a teoria recomenda a linha 5.d4 Cd6 6.Bxc6 dxc6 7.dxe5 Cf5 8.Dxd8+ Rxd8
Levando a interessantes complicações, existindo muitas análises a respeito.

O lance 5. Te1 é bastante antigo, e atualmente não é muito praticado. Entretanto, encerra algumas dificuldades para as pretas. Se não ficarem alertas, sucumbem rapidamente.

5...Cd6 6.Cxe5
Aqui, Brancas devem resistir à idéia infeliz de tentar obter vantagem mediante o lance de cilada 6.Cc3:

a) Se 6...Cxb5 7.Cxe5, e nenhum dos cavalos brancos pode ser tomado. Se 7...Cxc3 8.Cxc6+ Be7 9.Cxe7 Cxd1 10.Cg6+ De7 11.Cxe7 e o cavalo preto está perdido.
b) Se 6...Cxe5 7.Txe5+ Be7 8.Cd5, recaindo na variante principal, conforme será visto adiante.
c) Todavia, se Pretas jogam o correto 6...Be7, não têm o que temer. Brancas não podem forçar com 7.Cd5, porque o Rybka encontrou o diabólico 7...Cbd4!, parando todo o ataque branco.
d) Nesse caso, depois de 6...Be7 só resta às Brancas retomarem em b5, ficando em inferioridade face ao par de bispos concedidos às pretas, e sem casas centrais de apoio para seus cavalos.

6...Cxe5
Este lance aqui também é um erro. O correto continua sendo 6...Be7 7.Bf1 Cxe5 8.Txe5 0–0 9.d4 Ce8 10.d5. com jogo complexo.

7.Txe5+ Be7 8.Cc3 Cxb5
A vontade das Pretas em se livrarem do bispo espanhol branco leva ao desastre. Melhor 8...0–0 9.Bd3. com jogo igualado.

9.Cd5 0–0 10.Cxe7+ Rh8 11.Dh5



Neste momento ocorrem configurações de mate ao monarca preto, com base na típica posição do cavalo branco postado em e7. A ameaça direta aqui é o sacrifício de Dama em h7. E as tentativas de defesa das pretas fracassam. Por exemplo:

a)- Se 11...d6, 11...Cd6 ou 11...Cd4 12.Dxh7+ e mate na próxima
b)- Se 11...g6 12.Dh6 d6 13.Th5.gxh5 14.Df6 mate
c)- Se11...h6 12.d3 Rh7 13.Tg5 Dxe7 14.Txg7+ Rxg7 15.Bxh6+ Rf6 16.Bg5+ Rg7 17.Dh6+ Rg8 18.Bxe7 Cd4 19.Bf6

Em muitas outras situações, pode ocorrer cenário semelhante a este. Seja em partidas de peão de rei ou de peão de dama, ocorrem variantes agudas, onde o menor descuido costuma ser fatal. Para tanto, o preparo prévio para colocar o adversário ante tais problemas, ou saber como sair deles em situação inversa, é de fundamental importância.

4. RUY LOPEZ – ANTI-MARSHALL
Essa linha de jogo presta-se muito bem ao tema central desse trabalho. Muitas vezes, o jogador de brancas não gosta de jogar contra o Ataque Marshall, porque sente-se desconfortável em jogar na defesa, mesmo com o peão a mais sacrificado pelas pretas. É o caso, por exemplo, de Kasparov, que sempre evitou entrar na famosa linha criada por Frank J. Marshall. Para tanto, existem numerosas e variadas linhas “Anti-Marshall”.


Ocorre que, aproveitando essa circunstância, mesmo nas linhas assim denominadas “Anti-Marshall”, o jogador das pretas deve ficar atento para possíveis imprecisões do adversário na condução da abertura. Isto porque podem ocorrer situações onde, contra a vontade que manifestou o adversário de evitar linhas de ataque das pretas, brancas ainda assim são lançadas a uma posição de defesa, e até mesmo de inferioridade. Essa seria, então, uma condição psicológica altamente favorável para as pretas, e os resultados de muitas partidas lhe são sobejamente favoráveis justamente por esse motivo.


Portanto, o preparo do jogador de pretas para jogar linhas “Anti-“Marshall” compreende até mesmo algumas posições onde a oportunidade de o famoso sacrifício reaparecer, com a sua força costumeira.
Na linha de jogo abaixo, verifica-se a probabilidade de ocorrer séria imprecisão no jogo das brancas em duas ocasiões, para as quais o jogador de pretas deve ficar atento. Se ocorrerem, deve atuar enérgicamente e de imediato, tentando tirar proveito do despreparo das brancas e de sua condição de inferioridade psicológica ao ter que jogar na defesa e em clima de combate acirrado.


1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 a6 4.Ba4 Cf6 5.0–0 Be7 6.Te1 b5 7.Bb3 0–0



Neste ponto, o condutor das pretas está deixando em aberto duas possibilidades: ou jogar no próximo lance o sólido 8...d6 para então seguir nas linhas típicas do Sistema Chigorin, ou partir para as agressivas linhas de ataque proporcionadas pelo sacrifício de peão consubstanciado no lance 8...d5.

Existem variadas formas de as brancas evitarem o Ataque Marshall. Só que, para isso, terão de desistir, ao menos momentaneamente, de seguirem em seu propósito de jogar as linhas normais do Sistema Chigorin. Duas dessas linhas serão apresentadas a seguir, uma em forma de variante principal, outra como variante secundária.

8.h3


Outra das formas de evitar o Marshall seria 8.a4
Neste ponto, pretas podem escolher entre avançar o peão a b4, ou defende-lo mediante 8...Bb7, que é o lance indicado aqui.
Neste ponto, se o jogador das brancas não tiver preparo suficiente, na vontade de seguir com seu plano de jogar a variante normal do Sistema Chigorin, poderá cometer a seguinte imprecisão:
9.c3?!
Ocorre que esse lance faz reaparecer justamente aquilo que as brancas quiseram evitar com 8.a4: o Marshall, agora sob forma de um dispositivo de ataque característico pela forte posição do bispo preto localizado em b7:
9...d5! 10.exd5 Cxd5 11.Cxe5
(Se 11.axb5 axb5 12.Txa8 Bxa8 13.d3
Este lance coloca em relevo a drástica mudança de atitude que teve de fazer o jogador das brancas: um lance de cautela, para segurar uma posição mais livre que já foi conquistada pelas pretas. O aceite do peão ofertado mediante 13.Cxe5 Cxe5 14.Txe5 Cf4 15.d4 Cxg2 16.Dg4 Ch4 leva a uma situação de inferioridade similar àquela da variante principal)

Depois de 13 d3, pretas ficam com posição ao menos igualada, onde uma das alternativas válidas seria 13...Bf6)

8...Bb7
Ante a alternativa Anti-Marshall 8.h3 adotada pelas brancas, este lance é um dos mais efetivos.

9.c3




Novamente, neste ponto as brancas deveriam se contentar com o passivo 9.d3 d6 10.a4 Ca5 11.Ba2 c5 12.Cbd2 Bc8
Volta o bispo a acessar a diagonal h3-c8 para, entre outras coisas, dar combate ao ativo bispo espanhol de a2 mediante Be6-Bxa2. Esta é mais uma circunstância onde ocorre o Plano B, no qual o jogador tem de se ajustar às medidas exigidas pela posição. Aqui também fica manifesto que as brancas não puderam dar seqüência à manobra típica liberadora d3-d4-d5 ou d3-d4-d4xc5, porque ainda não puderam realizar o lance de apoio central c3. Por tudo, uma vitória em termos psicológicos do jogador das pretas. Resta saber se seu adversário possui fortitude suficiente para contornar essa questão, e prosseguir jogando a partida como ela exige ser jogada.

O lance 9.c3 prova ser um erro, porque viabiliza justamente aquilo que brancas quiseram evitar: o lance liberador de Marshall.

9...d5
Aqui a melhor continuação para as brancas parece ser 10.d3, segurando a posição central, embora em caráter restringido. O aceite do sacrifício, pretendendo ainda provar que seu lance 8.a4 foi realizado justamente para proibir o nono lance preto, resta ser deveras ruinoso, conforme a possível continuação a seguir:
10.exd5 Cxd5 11.Cxe5 Cxe5 12.Txe5 Cf4!


Neste ponto, este salto de cavalo, conjugado com o forte apoio proporcionado pelo bispo de b7, confere manifesta vantagem às pretas, atestando a plena vitória psicológica sobre o jogador das brancas.

13.f3
Tentativa fracassada de segurar a posição. Brancas devem se resignar a devolver o peão de vantagem, entretanto com irremediável comprometimento do castelo peonífero de seu monarca, mediante:

13.d4 Cxg2 14.Dg4 Ch4 15.Cd2 Rh8 com clara vantagem.

13...Cd3! 14.Te2 Bc5+ 15.Rh1 Dh4 e a vitória final está próxima;

(Por: Ernesto Luiz de Assis Pereira elap@terra.com.br - Texto do Ciclo de palestras do Clube de Xadrez de Curitiba http://www.cxc.org.br/ realizada em maio de 2007).

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